Tecoterecoteco e outros Devaneios

04/03/2011

Consolação – Paraíso – Liberdade

 

Haviam brigado. O final turbulento de uma conversa relativamente tensa. No Paraíso, cada um se encaminharia para um lado. Ele para a Consolação (com o perdão do trocadilho infame). Ela para o Tietê, e, para isso, sentido Liberdade.

Na última imagem do rapaz, aqueles olhos grandes que, em tempos atrás, lhe deram alegrias que ele jamais imaginou existirem, voltavam-se para o chão da plataforma. De forma que ele sabia que ela só levantaria a cabeça depois que saísse do campo de visão dele. Nunca mais se olharam nos olhos.

Hoje ele se arrepende de tudo. Do que fez e do que não fez. Do que viveu e do que deixou de viver. De tê-la deixado ir e de ter corrido atrás dela logo em seguida. De ter escrito seus melhores poemas pensando nela e de ter jogado todos fora tempos depois. De ter sido tão infantil quando era necessário ser forte. E de ter sido forte demais quando ela, sem saber, foi infantil. De ter se sentido um peso na vida dela e de fazer dela, de alguma forma, um peso para a sua.

E hoje em dia não há dor, ressentimento, saudade ou coisa que valha quando ele pensa naquele tempo. Outras passaram, outras passarão.

É apenas uma lembrança boa no relicário da memória. O tipo de coisa que as pessoas, de algum jeito, se sentem privilegiadas por terem vivido.

O rapaz cresceu.

 

Callil


Escrito por V & V às 00h07
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23/01/2011

5 minutos

 

Ela se conformava com a altura que tinha. Não porque disse ou parecia satisfeira com o tamanho de seu corpo, mas porque além de não usar um salto, suas roupas davam a exata impressão da medida de de seu metro e sessenta e dois. Loira, dotada de um rosto esculpido ao longo de 26 anos por mero capricho do Tempo, se entregava à conversa num sorriso fácil e desinibido. Seu marido, consciente de tudo isso, aparentava, dentro das possibildiades masculinas, virtudes semelhantes. Ela,quando cumprimentava um conhecido ou desconhecido, dava-lhe um beijo no rosto. Não era uma bochehchada (como é de costume, principalmente, quando cumprimentamos aqueles que não conhecemos) vinha com a boca quase de encontro à do outro e, no último momento, desviava para o lado, deixando que o canto de seus lábio tocassem os lábios alheios. Nesse momento, dava para sentir o seu hálito, que era bom não pelo aroma de cigarro com cerveja quente, mas por ser acompanhado de um olhar paradoxalmente interessado e displiscente. Chamá-la de anjo seria cafona demais, de deusa, pior ainda, de gata, injusto. Talvez ela seja a única pessoa que eu já vi em toda a minha vida na qual esse adjetivo tem, de fato, a exata precisão de seu significado: LINDA.

 

Callil.


Escrito por V & V às 12h21
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17/12/2010

À parte do todo

Uma parte de mim anda por aí. Inexoravelmente, alheia a meus anseios, e presa dentro do meu peito. É como tentar cingir uma ave e desperdiçar a alegria livre de alçar voo. É acostumar-se com a inevitabilidade do destino na tentativa de alcançar um arquétipo de desprendimento. É racionalizar a exatidão subjetivamente controversa.

Uma fundamental parte de mim vaga pelas ruas. Anda trocando olhares, experimentando os sabores adocicados da existência. É como se quisesse somá-la e assegurar que jamais assumiria novas formas nas quais não me enquadro. É querer a certeza do duvidoso e a seguridade do imperecível. É o silêncio irrevogável da troca íntima de olhares.

Uma indissociável parte de mim perambula pela vida. Tem convicções, desejos, fundamentos e risos próprios. É como querer ser o escopo de toda a sua felicidade sem causar constrangimentos. É a fragilidade domada pelo instinto de unidade. É desesperar-se em demonstrar naturalidade.

E pensar que esta parte de mim não sou eu, ainda que seja o pretexto mais significativo do meu existir. Imaginar que até a pouco não povoava sonhos, nem figurava em projetos futuros. Hoje, é ar que enche pulmões, é abrir olhos na manhã, é sorrir suavemente sem porquê. É acreditar sistematicamente em qualquer verdade. E afinal todas as singularidades que fazem desta parte a mais vital de todas, explicita insistentemente o que é a ventura de tê-la em mim.


Escrito por V & V às 14h28
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27/11/2010

Tudo Isso

                O que tem em toda essa lição de moral que as pessoas vomitam em cima dos ombros alheios? O que tem nessa necessidade de se sentir sábio dos malditos entendidos em coisas que ninguém realmente se importa, mas os valorizam como se fossem capazes de ser uma espécie de videntes ou seres habilitados para diagnosticar os problemas de todos independente de suas reais conjunturas? O que tem nessa necessidade de ser necessário, que a inutilidade nos parece um fardo a se carregar por todos aqueles que esperam atrás dos holofotes, o reconhecimento do público?

                Ah, maldita mania de querer ser inútil. De poder não lhe prestar para nada e, de você, nada ser esperado. Maldita mania de não lhe ser útil apenas para lhe aborrecer. Não como a mosca da sopa ou a dor de cabeça, mas como o cansaço da alma. O cansaço que se expressa nos olhos inconscientes da própria expressão. O cansaço que salta ao rosto daqueles que se cansam de não poderem reclamar, então reclamam.

                Claro, há de haver alguém para dizer, falta uma vírgula falta concordância, falta estilo, falta estética. Outros dirão que existem características que eu nunca, nem sequer, pensei. Outros ainda não dirão nada, em sinal de um mero desprezo. O fato é que a grande maioria sequer há de saber que existiu em algum lugar alguém que, em algum momento, quis dizer algo. E no fim? No fim é isso aí mesmo. A vida continua, amanhã é domingo, depois algum parente morre, aniversário da tia velha, casamento da prima de segundo grau, enfim, todo vômito é acariciado por um bom pano com álcool depois que deixa de feder ou chamar a atenção dos transeuntes. Ah, os transeuntes, se esses indivíduos soubessem o quanto são capazes de ser odiados, mal sabem eles, é verdade, que possuem o mesmo potencial para serem amados, mas não sei, a primeira opção me parece mais sensata. Sensato é odiar um transeunte? Um transeunte? Com o Maluf ainda vivo e na ativa, o Sarney empalhado, o Rafinha Bastos querendo me dar lições de moral numa segunda à noite, a Geise Arruda na Sexy e a pessoa que merece um destaque por poder ser odiada é o pobre do transeunte?

                Eu sei, falta foco, concisão, ordem, nexo, coerência, e todos os outros adjetivos que nos remetem a uma produção de harmonia perfeita. Mas não falta mais nada? Se estivesse tudo isso aí em cima, não haveria nada a se dizer então? O conteúdo é tão desprezível assim quando a ordem não se apresenta? Não há conteúdo?!?!?! Como assim??!?!?! Calúnia! Claro que há! Dizer que ele é inexistente é ofensivo para com esse que vos escreve.

Tens olhos bonitos e um belo sorriso, e acho que é só isso mesmo.

 

Callil.

 


Escrito por V & V às 23h15
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23/10/2010

As bolas de Xavier

 

Os testículos de Xavier incharam o suficiente para fazê-lo se arrepender de ter tomado aquele maldito remédio contra dor de cabeça. Ele tinha certeza, se não fosse aquele estranho medicamento, ele, provavelmente estaria indo à escola normalmente, mas, desse jeito, com o saco do tamanho de uma laranja não dava. E na hora do intervalo, quando todos os meninos mijavam um ao lado do outro, competindo pelo maior pinto? Sempre tinha aquele que perdia e falava “O pinto beleza, mas, eu quero mesmo é ver que perde nas bolas”. O problema é que na disputa das bolas perdia a maior e Xavier certamente viraria chacota para o ano inteiro. “Bom, é só não ir ao banheiro” pensou, mas não era assim que funcionava. Em algum momento ele teria de ceder. Sabia que, quando menos esperasse teria alguém ali para ser a testemunha ocular de sua exagerada circunferência escrotal. Isso sem levar em consideração que tudo que é celular hoje em dia tem câmera e, muitos dos vencedores do concurso de piroca (os vencedores de fato, não seus donos), já ganharam perfil no Orkut, Facebook, Twitter com fotos na praia, na piscina, na sala de aula, enfim, Xavier ficou com medo de que sua passageira anomalia se tornasse o centro das atenções. “Desocupados” pensava ele. “Por que não vão cuidar das suas próprias vidas?”, “isso é uma doença pô! Será que eles não percebem”, “Tomara que sejam todos castrados, Malditos!”, “Nunca mais vou sair de casa”, “Desgraçados”.

                Quando sua mãe lhe perguntara o motivo da não ida ao colégio, Xavier inventou uma dor de barriga, de cabeça, nos olhos “Pô, mãe é foda né, não vou sair mostrando o saco pra velha” pensou. Como não tinha pai, achou melhor esperar. Daria conta de esperar. Ficar no quarto o dia todo esperando aquele troço retroceder.  Mas para onde retrocederia o gigante saco do garoto senão para dentro de seu próprio corpo? E quando essa ideia lhe passou pela cabeça, os pêlos de seu corpo se arrepiaram. Como aquilo sairia? Seria preciso uma intervenção cirúrgica de fato. O médico daria anestesia geral, afinal ele não ficaria acordado para ver uma sala cheia de gente mexendo nas suas intimidades. Anestesia geral, estava decidido. E, bom, haveria de ser um médico homem, afinal, se mulher nem saco tem, como é que iria querer consertar o dele que além de feio (como todo saco deve ser), estava temporariamente defeituoso. Não receberia visitas após a cirurgia. Pô, não é a vovó que operou de catarata. Ele era tímido e exigia o direito a essa privacidade. Era seu saco que estava em jogo.

                A mãe saiu para o mercado. Ele, submerso em preocupações pegou a lista telefônica e anotou o número do hospital. Não queria saber de consultas, de exames, de avaliações e toda essa burocracia. Seu professor de geografia vivia dizendo que o que atrasa esse país é a burocracia. Ele estava certo. Ia marcar essa operação de uma vez e o mais urgente possível. Checou mais uma vez para ver se o número estava correto. Discou. Um toque, dois toque, no terceiro toque atendeu e do outro lado da linha, uma voz abafada de mulher que lhe era bastante familiar  aconselhou: “Volta Xavier, volta. E leve este carma com você.”

 

Callil


Escrito por V & V às 18h55
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04/10/2010

Amor Malandro


Ele me chama de “amor”

E já me ganha na mão

Finge que gosta e desgosta

Maltrata meu coração

Faz de conta, o danado

Deixa entre o sim e o não,

E rouba meus pensamentos

Confunde meus sentimentos

Enfim, assim que era bom.

 

Faz que não liga e ri de canto

Castiga a alma um tanto

Faz de mim o que quiser

Sabe onde está seu encanto

Me diz que sou sua mulher

E rouba meus pensamentos,

Confunde meus sentimentos,

Enfim, assim é que é.

 

Victor Gouvêa


Escrito por V & V às 15h42
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01/09/2010

A Garota do Interfone

                O rapaz aparentava estar adoecido. Aparentava não, na verdade, ele estava, mas havia se cansado de repousar e renunciou a isto. Foi ao passeio pela cidade na companhia de amigos. O carro estacionou em frente uma casa. Muros brancos e altos. Ali, ao lado do portão, o interfone. Um dos amigos desceu e tocou o aparelho. Uma voz tão doce quanto um solo de trompete de Louis Armstrong saiu dali. Ficou a imaginar como seria a dona de tal instrumento. Por estar sentado do lado oposto do carro, quando ela abriu o portão, só via as pernas daquela voz. Eram belas pernas. Não só pelo tamanho e por todo e qualquer atributo que se possa dar a uma perna bonita (e sem tentar analisá-las isoladamente do contexto, pois aí seria um texto sobre anatomia), mas os movimentos eram certos, e elas se vestiam bem. A dona da voz então, no exercício de sua educação, veio cumprimentar os que estavam no carro. O rapaz pode ver então que aquela voz e aquelas pernas pertenciam a um rosto que finalizava a obra da melhor forma possível. Cabelos longos, ar de mulher feita, no entanto bastante jovial, olhos grandes, porém delicados, o nariz os unia à boca de forma singular e a boca, ah, a boca era algo como Drummond diria, “Boca de luar” (boca enluarada, de dentes muito alvos e leitosos). O amigo que saíra do carro havia combinado alguma coisa com a moça e logo voltou para o veículo. Voltaram todos para casa.

                O rapaz então, cansado pelas limitações que o estranho resfriado lhe impunha, resolveu dormir um pouco. Dormiu por horas, mas não se deu conta disso. Com o avançar da noite começou a perceber os amigos entrando e saindo do quarto para se arrumar. Iriam sair. O rapaz, no entanto, já havia se decidido por não acompanhá-los.  Abria o olho, via um, dormia alguns minutos, abria o olho de novo, era outro. Num dado momento acordou, porém não abriu o olho. Percebeu que dormia do modo ridículo que os enfermos dormem: a cabeça meio virada para trás, a boca entreaberta, as mãos sobre o estômago e as pernas esticadas. Parasse de respirar e já estava na posição do caixão. Resolveu abrir o olho de soslaio e, num grande susto, reconheceu a moça do interfone sentada na beira da cama ao lado. Ela olhava para a amiga (que estava sentada na beira da cama do rapaz) e perguntava da maneira mais discreta possível “O que ele tem?”. A amiga respondeu então de forma meio displicente “Tá doente”.  “Isso é absurdo” pensou ele, “Como deixaram ela entrar aqui e me ver dessa forma deplorável, dormindo que nem um cadáver”.

Nesse momento, os olhos do rapaz já estavam completamente abertos, mas ele se mantinha deitado e calado. Observava a garota do interfone em silêncio. Pensava consigo que ela não era o tipo de mulher para ser venerada, adorada ou tida como símbolo sexual, e não que ela não tivesse capacidade ou atributos para isso. Também não era mulher para se ficar correndo atrás, escrevendo textos e poesias, e não que ela não merecesse. Tampouco era mulher para ficar se ludibriando com juras de amor falsas e anéis baratos, não que ela não pudesse ter passado por alguma situação dessas. Para o rapaz, a moça do interfone era uma mulher para ser sonhada que, na petulância da realidade, deu-se em sua frente da forma mais viva possível. Nesse ínterim, sua febre baixou, estava mais desperto agora. Sentou-se na cama, olhou mais uma vez o objeto de suas reflexões conversando e gesticulando suavemente no meio do quarto e disse: “Também vou”.

 

Callil


Escrito por V & V às 09h04
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07/08/2010

            O Interlocutor 

 

Sentou na mesa e ascendeu um cigarro enquanto conversava. Tinha o estranho hábito de olhar os outros como se não fossem capazes de entender plenamente o que dizia. Quando um comentário surgia fora do contexto, abria um sorriso, já amarelado pelos anos de fumo e café, e explicava o assunto aparentando boa vontade. Era um tipo esquisito de pessoa, daquelas julgam ter uma inteligência muito além da própria compreensão. Não se entendia, e, para dizer a verdade, nem precisava disso. Bastava a certeza de que o idiota estava à frente ou ao lado, mas nunca incorporado em si. A arrogância que emanava daquela boca não vinha no contexto das palavras proferidas, mas sim num sorriso que, aliado ao relógio da miséria (que badala sempre no momento em que os miseráveis devem exercê-la), soprava aos ouvidos do outro o quão pequeno deveria se sentir. E quando este então percebia sua insignificância e, por descuido ou displicência, transparecia sua suposta estupidez em palavras, o personagem central aqui descrito se regozijava ao ter plena certeza que o chão estava mais macio.

 

Callil


Escrito por V & V às 10h12
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18/07/2010

Pois é...

 

Ela lia no metrô alguma coisa psicografada pelo Chico Xavier. Cartas editadas e publicadas. A privacidade dos mortos expostas de forma legítima em páginas de um livreto qualquer. Ele, pelo contrário não lia nada. Dizia não gostar, dizia não querer, dizia não ter nascido para isso, dizia uma porção de coisas que justificasse o fato de ele não ler. Num dado momento do acaso, enquanto se locomovia em direção a porta, tropeçou na mochila dela que estava largada no chão do vagão. Ele se desculpou, pegou o material que se espalhou por todo lado. Ela reconheceu a gentileza. Achou até “uma graça” ele se prestar ao trabalho de forma tão solícita, ainda que tivesse sido ele que derrubou tudo. Começaram a conversar...

 

Isso não acontece. É ficção. Pelo menos em São Paulo, é ficção. Reconhecer uma gentileza, admirar a leitura alheia (seja ela qual for), são romantismos fora de moda. Como diria Lispector “Enxergar além do que os olhos veem”. Raro, não é encontrar que o faça (pois eu nem sei se existe), é encontrar que o tente.

 

A noite, devagar e fria

Cai pela janela aqui de casa.

Em flocos de solidão

Esse quarto esfria e escurece.

Através da porta,

Escuto os barulhos de casas

Que apenas especulo existirem.

No eixo do corredor o lustre pisca

O barulho da geladeira

Se mistura com os ruídos da insônia

E na minha cabeça, uma sinfonia

Afinada com meu estado de alerta,

Impede que os olhos já cansados,

Caiam no deleite de um sono tranquilo.

 

Já passam das três...

 

Callil


Escrito por V & V às 22h19
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02/05/2010

Olhar certeiro

(Para ler ouvindo "Fé cega, faca amolada" de Milton Nascimento)

Como sabemos que estamos vivendo um momento inesquecível? Aquela lembrança que vai ser guardada para sempre, não importa quanto tempo passe, quanta gente nasce, quanta chuva caia, ou que se nade em tantas praias. Geralmente não se sabe, por não saber como conter a alegria do momento a viver. Ou, talvez, por que seja infinito, apenas, enquanto memória.

Mas não aquele momento. Aquele instante já nasceu único. Os braços se abraçavam, as pernas entrelaçavam, os olhos se procuravam, as bocas se encostavam. Ao fundo, ressoou despretensiosamente uma música, cuja letra diz "Agora não pergunto mais pra onde vai a estrada". E eles não querem mais saber mesmo. Não querem todas as certezas do mundo em troca daqueles minutos. Não pretendem ter segurança nem de que o amanhã vai surgir brilhante com os primeiros raios de sol, pois, naquela hora, os olhos se fitavam em tamanha intimidade, com tanto entrosamento, que tanto fazia se era mesmo um novo dia. Olhavam-se mutuamente e não era preciso dizer mais nada. Toda a compreensão do que há de mais sublime na vida estava ali.

Testemunhado somente pelo olhar, os braços e os abraços, a música, e o vapor que escorria suavemente pela janela. E agora é lembrança. Para sempre.


Victor G.


Escrito por V & V às 20h53
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28/04/2010

Medíocre

 

                Não há mais doçura no meu pote de mel. Não há mais penumbra nas ruas escuras dessa cidade. Não há mais luz nos raios que o sol vomita em nosso corpo. Não há mais pudor no sangue que cora nossas faces. Não há mais nada que seja em si, aquilo que se propôs ou ainda propõe a ser. As justificativas são vis, raramente viáveis. As palavras eleitas para compor esse palavrório foram pescadas no lago escuro que habita uma mente qualquer. Tudo aqui tem o real valor deformado e, esse valor, nada mais é do que a máscara daquilo que, um dia, foi um desejo. Agora, nesse momento, essa vontade, essa ansiedade, essa busca recém-conquistada, esse sucesso desenganado, esse cansaço justificado; perdeu tanto o brilho quanto a falta dele. Fixou-se na linha mediana da falta da diferença. Até mesmo indiferença seria alguma coisa. É o vácuo no qual o equilíbrio imperiosa e impiedosamente vive. E toda essa luta, toda essa morte lenta, todo esse sangue darramado não nos trouxe além do que, hoje, não passa de uma realização medíocre.

Callil


Escrito por V & V às 11h19
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18/03/2010

O lago das carpas - Cantareira

 

 Jogava pedras no lago. Tentava quicá-las na água. Fazia-o de modo negligente, como se o intuito da brincadeira fosse apenas divertir o inconsciente. Jogava uma e a água ondulava com o afundar da pedra. Ela observava o caminho dessa ondulação até a borda. Era o suficiente para lhe prender a desatenção. Volta e meia até passavam alguns transeuntes por ali, mas, naquele frio, eles em geral não se demoravam à beira do lago. Com o vento vindo pelas costas, os cabelos cobriam-lhe os olhos doces e sonolentos, e, com uma apatia não planejada, deixava as madeixas se acumularem e só eram retiradas quando lhe ocultavam a visão quase por completo. O agasalho que vestia era leve, dava ao corpo uma sensação de frio confortável. A brisa gelava seu rosto que, já pálido pela ausência de sol, rosava agora nas extremidades por conta da falta de calor. A alguém alheio, sua figura transparecia até certo desalento. Mero engano. Era apenas paz. Uma paz tão rara que lhe exigia a renúncia das percepções. Nada em seus movimentos era calculado. Nem o arremessar das pedras, nem o balançar da cabeça, nem mesmo as coçadas que dava no nariz, que, a essa altura começara a escorrer. Somente o silêncio, o vento e o lago. Quando se deu conta, já passavam das seis.

 

Callil


Escrito por V & V às 23h34
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17/03/2010

A inevitabilidade do fim

 

Durou 12 garrafas de vinho, 9 filmes, 5 restaurantes e 4 declarações de amor. Incompatibilidade de gênios. Simples assim. Às vezes um pensava que o outro fazia de propósito para culminar em uma discussão trivial. Mas não fazia. Em outro momento, aquela pensava que este se irritava consigo por não conseguir ver nada de bom nela. Mas não era.  Foi uma sucessão de deliciosos equívocos que proveram mais alegria do que esperavam, por menos tempo do que gostariam.

Tiveram brigas importantes e se davam bem na cama. Adoravam receber mensagens de celular em momentos inesperados. Eram tão diferentes que provocavam a atração pela simplicidade do efêmero. Noite e dia. Sim e não. Truffaut e Tarantino. Céu e mar. Madonna e Chico. Clichê e insuspeito.

Não beijaram na chuva nem chegaram a conhecer os pais, mas também não faziam questão de conhecer os pais. Mas faziam de beijar na chuva. Deram boas risadas juntos, acreditaram que seria pra sempre, planejaram coisas pro futuro que, mal sabiam, jamais viria em uníssono. Pensaram em filhos, em ano-novo, em assistir a videolocadora inteira, em trabalharem juntos, em serem felizes para sempre como nos filmes yankees.

Não podem dizer que não foi bom, ou que fariam algo diferente. Tudo aconteceu como o decorrer do caminho das águas de um rio. Foi cíclico e finito, como tudo que há de bom nesta vida. Fica na lembrança como um dia ensolarado no parque, mas com uma brisa saborosa que revolve cuidadosamente os cabelos. Pode ser que nunca tenha fim dentro de cada um, mas, afinal, parece mesmo nunca sequer ter começado.

 


Victor Gouvêa


Escrito por V & V às 02h22
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05/03/2010

Adoro quando me olha,

Quando desvia os olhos,

Quando rebate o olhar.


Adoro seu sorriso certinho,

Sem nenhum espacinho

pra tristeza entrar.


Adoro quando consente,

Adoro quando contesta,

E como me faz suspirar.


Adoro a sua presença, a sua ausência, te reencontrar.


Certamente só o tempo,

Este velho senhor tão voraz,

Vai me fazer odiar

As manias e pequenezas

Que já nem importam mais.


Mas ainda vou ser capaz,

De te ver, me apaixonar,

Porque és o reflexo de um tempo,

És o excesso de contento

Que carrego em meu pulsar.


Victor Gouvêa


PS: Parabéns ao meu grande amigo Callil pelos 23 anos bem construídos!


Escrito por V & V às 10h18
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10/02/2010

Meio Civilizado

Fomos educados um com o outro.

Ela educadamente deu um sorriso ao me ver. Educadamente correspondi e, não sem menos educação, começamos a conversar. Educadamente ela começou a contar-me sua vida, Seus afazeres, seus anseios,seus desejos e decepções. Tudo isso elevado a um nível, digamos, educado, de superficialidade. Contei coisas minhas também, é verdade. Ponderando palavras tentei mostrar aqueles 10% de mim dos quais me orgulho. Ela ouvia e, educadamente, sorria.

Entre umas e outras, com educação, trocávamos olhares (seria cumplicidade? seria simpatia apenas? ou pior, coincidência?). Eu, educadamente, imaginava como ela seria de fato, sem toda a educação que nos precedeu até então.

O problema é que chegou um rapaz. Muito educado por sinal. Cumprimentou todos à mesa de forma cordial e sorridente. Aparentava um bom coração. E tão discreto quanto educado, deu-lhe um beijo nos lábios, arrancando-lhe sorrisos de complacência.

O desgraçado do educado me oferecera cerveja, pastéis e outros petiscos. Educadamente recusei, com um sorriso falsamente educado no rosto. Com meus botões lhe atribuí as piores qualidades possíveis: amaldiçoei-lhe os cabelos, dei conotação estúpida as palavras que dizia, aumentei as falhas de seu rosto. O sujeito continuava a me tratar bem. Até melhor do que no começo da conversa. Devia ter simpatizado comigo. Idiota.

No final da tarde me senti educadamente mesquinho.

Maldita educação.

 

Callil


Escrito por V & V às 19h27
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16/01/2010

O buço

 

Composição atemporal

E de seu buço escorria suor. Não era um grande emaranhado de pelos, mas dentro em pouco já teria condições de se denominar “bigode” aquela penugem que insistia em crescer sobre seus lábios. A contra gosto de sua beleza, o elemento sobrelabial não lhe caracterizava como feia, descuidada ou desatenta, apenas lhe estampava no rosto algo que ali já morava há algum tempo, o cansaço.

               

Composição semi-(a)temporal

                Certo dia, ao se olhar no espelho, reparou na protuberância que lhe tirava, aos poucos, a suavidade feminina, e se apercebeu de que sua beleza esvaia-se com o decorrer dos anos, relaxamento este, inerente aos seres cansados. Não é uma fadiga de corpo, é um desalento que toma em demasia a alma e tem como porta de saída ao mundo os olhos da pessoa exaurida. É o sangue que se derrama sem rasgar a pele, sem furar a carne.

                Mãe de um prole composta por sete filhos, mulher cujo marido optou pela covardia do alcoolismo (e não digo que todo alcoolismo seja reflexo de uma covardia), sentia-se enfastiada pela vida.

               

Composição temporal

                Domingo, como de costume, foi ao parque da cidade com as crianças. A cunhada, em geral, ajudava nessa tarefa. Em meio aos pipoqueiros, vendedores de toda a sorte de guloseimas e tocadores de música que usavam seu instrumento como um recurso para conseguir esmolas, achou-se um fotógrafo. Não que ela fosse dada a recordações, ou que quisesse congelar aquela lembrança (ou a representação dela) para um tempo que fosse além do que lhe é permitido pelo destino. Mas sentiu a singela vontade (e seu sentimento se resumiu a isso, somente isso) de tirar uma fotografia, ainda que com o buço, ainda que sem marido, ainda que com a cunhada, ainda que as crianças não estivessem com sua melhor roupa, ainda que o dinheiro não fosse para esse fim.

                Sobressaiu, frente a tudo, um ser humano naquela mulher.

 

 

Callil


Escrito por V & V às 12h02
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19/12/2009

Sábado Morto (minha mente, meu corpo)

 

Acintosamente vou embora. Não porque não há mais o que fazer, nem porque não há mais o que pensar. Vou porque olhar na sua cara já começa a me dar náuseas. Aos poucos sobe-me pelas entranhas um asco que, certamente, não caberá em mim. O nojo que desperta em meus sentidos me faz pensar que estou comendo carne crua em estado de putrefação. Teu rosto, antes aceitável e até compreensível, agora é disforme, mal feito, mal acabado e, mais do que tudo, mal-intencionado.

 

Belas paisagens,

hoje vejo nos teus olhos,

belas paisagens.

Vejo o mar da minha janela

a quilômetros do litoral,

vejo o mar da minha janela.

 

És minha companheira fiel,

nos teus braços e abraços

durmo e acordo

esqueço e recordo

de qualquer outra alegria.

 

Não a amo,

pois isso seria suicídio.

Mas a venero

E deixo que tomes conta de mim.

 

 

Um Grande Abraço a todos.

Callil


Escrito por V & V às 12h13
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24/11/2009

Soldados cotidianos

Aquele bando de soldados do cotidiano continuava a marchar, carregando os mesmos olhares vagos, pensamentos triviais, ilusões contidas e esperanças entreabertas. Rumavam, assim, de forma automática e desumana, ao próximo trem que deveria chegar ao passo que o ponteiro grande sobrepusesse ao número 5.

Esbarram-se e fingem não perceber, mas irritam-se facilmente com sutilezas particulares confrontadas sob o olhar exagerado da coletividade. Respiram, piscam, suam, sentem e sonham. Sobretudo suam. 

Não têm ideia da sua importância na construção paradoxal e dissonante a que se chama de sociedade, mas imaginam apressadamente que estão constantemente atrasados. 

Buscam um assento, baixam as cabeças, olham seus pertences e não elocubram sobre nada; apenas pensam. Aproveitam minimamente a grande questão que os diferencia de uma lagarta ou um esquilo. Sentem-se bem desta forma. Não fariam nada diferente, ainda que tivessem a surreal oportunidade de vivenciar novamente momentos passados. Tudo foi como deveria ser e resulta perfeitamente no que é.

Os tiros, as balas, a violência e as mortes não afetam estes soldados. Eles só sabem marchar.


Victor G.


Escrito por V & V às 23h42
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20/11/2009

Breu da dianteira

Tenho medo do dia comum. Medo do dia em que eu acorde e não tenha esperança que aquele dia não seja comum. Ainda que por causa de um desastre, ainda que por causa de algo bom que possa acontecer. Tenho medo de, um dia, não me impressionar mais com o sol que bate ao pé da minha janela e me acorda as seis da manhã. Tenho medo de me tornar um homem tão escroto a ponto de um dia olhar para uma criança e tratá-la como um adulto, ou pior ainda, como uma idiota. Tenho medo de um dia não ter mais medo de nada e começar a agir sem pensar, que é assim que fazem os dotados de(a) certeza.  Tenho medo dos olhos que me cercam na rua e que me questionam sobre atitudes que nunca tomei. Tenho medo dos olhos que me encaram e nunca me viram de fato, e, na certeza que têm de saber quem eu sou, presumem com a arrogância de um vidente o meu próximo passo.

                Tenho medo do mundo ao meu redor, ainda que sem ele e sem  medo, eu não tenha nada.

               

 

Um grnde abraço a todos!!!

Callil


Escrito por V & V às 23h31
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10/11/2009

Poema meu que encontrei no fundo de uma gaveta, escrito em 20/04/2002


Tempo, um jovem rapaz.


O tempo é jovem fugaz.

Se queremos contê-lo,

foge por nossas mãos.

Na ânsia que se vá, resiste.

E os minutos tornam-se horas,

as horas tornam-se dia,

e esses dias...

Ah! Esses dias são a eternidade.


De repente, nesta luta infinita,

ele nos dá uma rasteira

e passa voando por nossas costas:

As flores já nasceram,

o sol brilhou intenso,

a lua então minguou,

as folhas já caíram,

o tempo definhou.


O que lembraremos deste tempo todo?

Que o tempo é jovem fugaz,

e a vida...é efêmera demais.


Victor Gouvêa


Escrito por V & V às 16h01
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05/11/2009

Ecoando


Conversava com o eco

E sorrindo me dizia

Coisas que eu já sabia

Mas não ousava pensar...


O eco, o ar, o ecoar.

Catarses e epifanias,

Remontam tamanha alegria

Por não morrer sem tentar.


Victor G.


Escrito por V & V às 13h53
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26/10/2009

Entre as vistas

 

Olham sua foto. Se é casado, se tem filhos e se mora longe. Se mora longe é um problema, pois, caso te contratem, dificilmente não vão querer pagar mais de uma condução para você. O serviço que vai desempenhar é supérfluo para a empresa (na visão dos contratantes), apesar de ser indispensável (senão não estariam contratando pessoas para essa função). Qualquer um que saiba ler e digitar pode exercê-lo. Certo, o anúncio muitas vezes diz “Perseverança, pró-atividade, garra e vontade de aprender”. Acredite, isso não é mensurável. Você pode estar repleto disso dentro de si e não conseguir convencer o p... do entrevistador que você tem essas qualidades.

Tome um banho, faça a barba, corte as unhas, ajeite o cabelo, ponha sua melhor roupa, escove os dentes, bocheche um Listerine e prepare-se: você é descartável, muito mais do que imagina.

 

Um grande abraço a todos!

Callil


Escrito por V & V às 10h32
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16/10/2009

Egolópole

 

     Voltava eu, após um dia de chuva, cinza e frio, para casa. Não digo aqui que era um dia feio pois não acredito ser esse um adjetivo justo para os dias de chuva. Talvez esses sejam assim chamados por serem, eventualmente, frios, até solitários, mas feios, ah, isso nunca.

                O fato é que eu voltava da cidade universitária da metrópole paulistana para minha casa. Esse caminho exige um certo deslocamento burro, visto que é necessário ir até um ponto para fazer o mesmo caminho inverso depois. Não existe um transporte rápido da cidade universitária para alguns pontos da região sul/oeste da capital, como, por exemplo o sentido Campo Limpo, ou, até mesmo, para ser mais exato, as proximidades do shopping Butantã.

                No entanto, o que venho aqui salientar não é caminho a ser feito, tampouco a necessidade das conduções a se tomar para efetuá-lo. Enquanto sobrevivia a epopéia do primeiro ônibus, resolvi espiar a janela de trás. Estava sentado na última cadeira, e a maior (e melhor) janela do ônibus estava logo atrás de mim. Qual não foi meu regalo ao ver o crepúsculo que se compunha. A imagem projetada no céu oriunda das cores emanadas pelos últimos raios solares do dia eram dignas de uma pintura em tamanho real. Por um bom período de tempo, o barulho da entrada do Largo de Pinheiros não atingiu meus ouvidos, a beleza da menina sentada ao meu lado nada me dizia, o funk que tocava no alto-falante de um celular perdido pelo coletivo não alcançava a atenção de eu desprenderia outrora. Aquele por do sol, aquele resquício de vida inteligente na metrópole era ignorado pela maioria.

                Inicialmente, me senti um privilegiado. Entre tantos, nenhum se deparava com o espetáculo às suas costas, além de mim. Me senti diferente, de alguma forma, até melhor que os outros.

                Chegando em casa, perguntei à minha mãe “você viu o por do sol que teve hoje?” e ela me disse “Se vi! Deu um fim de tarde maravilhoso, o céu estava espetacular.”. Me senti sacaneado. Aquela era para ser uma percepção somente minha. Concordei com ela. No final da noite, antes de dormir, pensando nos acontecimentos do dia, lembrei do pôr do sol. Lembrei do que senti quando o vi. Lembrei do que senti quando minha mãe o viu. E percebi que tenho uma capacidade enorme de ser uma pessoa mesquinha, mas algo me conforta – tenho certeza que não sou só eu.

 

Um grande abraço a todos!!!

Callil


Escrito por V & V às 11h47
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04/10/2009

Constatações apaixonadas

Passeava despreocupadamente pela Avenida Paulista às 6 horas da manhã de um domingo que acabava de começar. Os traços duros do concreto cinza já não pareciam mais tão ríspidos como outrora. Os tons coloridos se destacavam e ele se sentia absorvido por aquelas cores como elas se sentem pelos seus olhos.

Na rua o cotidiano era o mesmo: Um carro batido e poucos policiais embuídos da mais pura má vontade, uma senhora perua correndo com seu cachorro que gostaria de estar dormnido, um casal sentado no ponto de ônibus trocando olhares de cumplicidade. Sinal abre, sinal fecha. Para o mundo nada tinha mudado. Para o seu mundo, nada era mais como antes.

Andava vagarosamente enquanto admirava um feixe de luz que insistia em penetrar na parcial penumbra que cobria o céu daquela manhã nublada. Sentiu gotículas ínfimas tocarem seu corpo pouco a pouco, como se fossem pequenos toques de outros dedos. Se fosse durante a semana pensaria que aquela garoa que pincelava seus óculos e atrapalhava sua visão era dos ar-condicionados. Estava, então, definitivamente apaixonado. Não se importou com a demora do ônibus. Não ligou para a conversa estafante do bêbado. Não se resfriou com o vento gelado que somava à garoa o perfeito clima para um filme a dois.

Sabia que a partir daquele momento sua vida estava mudada. Mas não queria pensar naquilo. Afinal, não é todo dia que se vive uma paixão.

Victor G.


Escrito por V & V às 07h12
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21/09/2009

Ele, ela e a cadeira

Na sala de jantar tinham três cadeiras. Uma para ele, outra (obviamente) para ela, a terceira era para uma possível visita. É certo que nunca haviam recebido visitas desde que se mudaram para aquele apartamento, e isso havia acontecido há dois anos, mas, de qualquer forma, a cadeira estava ali. Ainda que fosse só para completar a composição decorativa da sala, ainda que fosse para suprir o vazio que ficaria caso ela (a cadeira) não estivesse ali, ainda que estivesse pelo fato de ter vindo junto, no conjunto.

                É certo porém, que aquele espaço vazio, aquele móvel silencioso, despertava no casal diferentes esperanças. Ele dizia que ali, um dia, sentaria seu atual chefe e dono da empresa, numa futura ocasião, sócio. Ela sorria gostoso, um sorriso desses que a gente dificilmente esquece, e abençoava o que ele dizia.  Apesar de seu sorriso, ela sonhava outras ocupações para aquela cadeira. Pensava que quando seu irmão voltasse da clínica de reabilitação, ele poderia morar ali, assim não precisaria voltar para a casa dos pais e ficar ouvindo as antigas conversas. Às vezes ia mais longe. Sonhava que um dia ali, sentaria uma criança, fruto da união dos dois (ele e ela).

                O fato é que o tempo passou. Os três ficaram velhos. Ele, ela e a cadeira.

                E no clichê do sonho não realizado, a cadeira foi praticamente esquecida. Com a troca dos móveis da casa no decorrer dos anos, a cadeira foi posta no quartinho do fundo - em frente a máquina de costura que era da vó dela - onde eles poucas vezes entravam durante o mês.

                É verdade que toda vez que eles entravam ali, fosse ele, fosse ela, olhavam com certa tristeza para a cadeira. Não pelo móvel estar ali, inutilizado. Não pelo móvel estar velho. Não por ele ter perdido a função que antes possuía.

                A tristeza que lhes batia (eles se igualavam nesse sentimento), era um tanto inexplicável. Vinha-lhes um sentimento de nostalgia, saudade, e, ao mesmo tempo, decepção.

A cadeira era o símbolo do sonho que eles não realizaram. A cadeira é o símbolo de sonhos que, um dia, ao menos eles tiveram.

 

Um grande abraço a todos

Callil


Escrito por V & V às 11h50
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09/09/2009

Crônica do Sepulcro Passional

Ela não sentia nenhuma dor pelo ocorrido. E o pior: tampouco sentia remorso por não encontrar-se absorta em sentimentos negativos. O marido ali, naquela situação, estendido sobre a caixa de madeira. Todos fitavam seus olhos, escondidos atrás de um Ray-Ban que ganhara do pai na viagem à Nova Iorque, à procura de lágrimas que nunca rolaram. Bem que forçou um pouco para tentar atender ao anseio do público à espera do líquido que verte dos olhos dos aflitos, mas não conseguiu.

Para aqueles que vieram prestar suas condolências, comentava-se à boca pequena que ela estava apática, como ficam os que perdem seus entes queridos de forma tão abrupta. Mas não. Ela própria considerou a possibilidade, mas logo entendeu que o que sentia naquela sala com luzes intermediárias e um forte odor  – das muitas coroas de flores que recebera – era equivalente a um simples lamento.

Lamentava por não ter mais o café preparado por aquelas mãos, que o faziam como ninguém. Sentia pela falta que lhe faria ser hipnotizada por aquele riso único, mas que há tempos já não ouvia mais. Sentia mais por si mesma do que pelo defunto. E por si própria não poderia chorar, há que se acostumar, apenas.

Olhou por algumas vezes aquele corpo frio e lembrou-se dele outrora quente sobre o seu. Lembrou-se de quantos momentos de intimidades foram compartilhados. Não sentiu saudades. Apenas suspirou e pensou consigo: “É, foi bom”. A esta altura, pode parecer a todos os presentes na cerimônia derradeira que esta é uma viúva sem coração. Com razão. Estamos acostumados às pirotecnias fúnebres, como a que fizeram a mãe e a sogra – do defunto, sua própria mãe. Não se sabe quem estava mais inconformada, pois o genro sempre disse que a sogra era sua segunda mãe.

Se a situação fosse contrária seria digna de pena por ele. Sempre foi sentimentalista, melodramático, poeta, teatrólogo, Shakespeariano, notívago e artístico. Admirava-a como quem vê um Van Gogh pela vez primeira, justamente pela sua forma de encarar situações da vida de um jeito prático e insolúvel: o oposto de si. Certa vez conversavam na cozinha sobre temas Universais como a vida e a morte. Ele buscava a inspiração Aristotélica para fundamentar sua divagação, e ela lia os valores nutricionais do biscoito. Assim se complementavam e puderam viver tantos anos juntos. Mas ele sempre cultivou uma inexplicável loucura por ela maior do que o contrário. E pela Lei Geral dos Relacionamentos Amorosos, qualquer amante deve estar em sintonia quantitativa com o amado, para que não haja cobranças e desavenças posteriores em relação a isto.

Quando baixou o caixão na terra, a viúva soltou um soluço, deixando todos com a impressão de que, naquele último momento, dera-se conta do que se passava e principiava um tímido lacrimejar. Engano. Soluçara por conta da gordurosa coxinha que comeu às pressas como almoço. Tinha para si que o amor havia acabado há muitas décadas, a admiração há muitos anos, a consideração há poucos meses e o resto de um sentimento há algumas horas. Porquanto, só lhe restava lamentar.

Quando a última pá de terra foi despejada, agradeceu a presença de todos - como fazem os artistas no fechar das cortinas - virou-se nos calcanhares, e andou num passo apressado para pagar a conta antes que o banco fechasse e acarretasse em uma multa no dia seguinte. Para ela a vida continua.

Victor G.


Escrito por V & V às 04h56
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31/08/2009

Ontem mesmo

 

      Ontem mesmo os elementos que suportam os acontecimentos desta história mudaram. O mundo era um conto linear. Coisas que faziam sentido a todos, não mais que de repente, deixaram de existir. A incerteza se apoderou da imagem do relógio que trago em meu pulso e o tempo, que antes me era uma ferramenta de controle, agora é palco e motivo de desatino em meus pensamentos. Desatino este oriundo da procura pela razão, não para a organização das idéias, mas pelo sossego da alma.

      Hoje dei um soco no estômago de meu reflexo no espelho. Sangraram os olhos do reflexo. Sangraram-me os dedos da mão direita.

 

 

Um Grande Abraço a todos!

Callil


Escrito por V & V às 23h26
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25/08/2009

Homenagem ao mestre

“Você faz tantos planos

Fica voando em Aeroplanos

Da imaginação

Porque você não faz

Do seu campo de pouso

O aeroporto do meu coração”

 

Jorge Mautner

 

 

Um grande abraço a todos!!

Callil


Escrito por V & V às 22h25
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04/08/2009

Olhos rápidos

Ah, aqueles olhos,

doces olhos!

Que de atenção e confusão,

na anti-prolixidade do dia a dia,

se encontram em meio ao caos daqui.

 

E se meu cotidiano não é doce

ao menos aqueles olhos me são,

ainda que rápidos,

ainda que honestos em ser apenas educados,

ainda que cegos ao outro lado de mim.

 

 

Um grande abraço a todos!

Callil


Escrito por V & V às 20h44
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01/08/2009

Ácido

Às vezes o ácido sai nas palavras, nos gestos, na intenção. E disso tudo, só se enxerga a tentativa e, lá no fundo, a eterna dúvida.

 

Solitude,

atitude da alma em estar só,

varre pra longe essa gente estonteada

que vagueia esse mundo como as moscas

sobrevoam a merda recém expelida

e dê a elas outra merda a se fartar,

esta lotou.

 

Moral,

abra a tampa dos esgotos,

deixe livre as galerias,

que os desgostos daqui podem sufocar

até o mais bravo dos espíritos,

até o mais prudente dos homens;

é inútil resistir.

 

Que a indulgência não venha

pelos pecados que fiz, e sim,

por aqueles que morreram em pensamento

e que, moralmente, são muito piores

por nunca terem sido feitos,

mas arquitetados em perfeita sincronia

apenas para que a doença da mente

se satisfizesse.

 

Um grande abraço a todos

Callil


Escrito por V & V às 15h08
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