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| 24/11/2009 |
Soldados cotidianos Aquele bando de soldados do cotidiano continuava a marchar, carregando os mesmos olhares vagos, pensamentos triviais, ilusões contidas e esperanças entreabertas. Rumavam, assim, de forma automática e desumana, ao próximo trem que deveria chegar ao passo que o ponteiro grande sobrepusesse ao número 5. Esbarram-se e fingem não perceber, mas irritam-se facilmente com sutilezas particulares confrontadas sob o olhar exagerado da coletividade. Respiram, piscam, suam, sentem e sonham. Sobretudo suam. Não têm ideia da sua importância na construção paradoxal e dissonante a que se chama de sociedade, mas imaginam apressadamente que estão constantemente atrasados. Buscam um assento, baixam as cabeças, olham seus pertences e não elocubram sobre nada; apenas pensam. Aproveitam minimamente a grande questão que os diferencia de uma lagarta ou um esquilo. Sentem-se bem desta forma. Não fariam nada diferente, ainda que tivessem a surreal oportunidade de vivenciar novamente momentos passados. Tudo foi como deveria ser e resulta perfeitamente no que é. Os tiros, as balas, a violência e as mortes não afetam estes soldados. Eles só sabem marchar.
Victor G.
Escrito por V & V às 23h42
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| 20/11/2009 |
Breu da dianteira Tenho medo do dia comum. Medo do dia em que eu acorde e não tenha esperança que aquele dia não seja comum. Ainda que por causa de um desastre, ainda que por causa de algo bom que possa acontecer. Tenho medo de, um dia, não me impressionar mais com o sol que bate ao pé da minha janela e me acorda as seis da manhã. Tenho medo de me tornar um homem tão escroto a ponto de um dia olhar para uma criança e tratá-la como um adulto, ou pior ainda, como uma idiota. Tenho medo de um dia não ter mais medo de nada e começar a agir sem pensar, que é assim que fazem os dotados de(a) certeza. Tenho medo dos olhos que me cercam na rua e que me questionam sobre atitudes que nunca tomei. Tenho medo dos olhos que me encaram e nunca me viram de fato, e, na certeza que têm de saber quem eu sou, presumem com a arrogância de um vidente o meu próximo passo. Tenho medo do mundo ao meu redor, ainda que sem ele e sem medo, eu não tenha nada. Um grnde abraço a todos!!! Callil
Escrito por V & V às 23h31
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| 10/11/2009 |
Poema meu que encontrei no fundo de uma gaveta, escrito em 20/04/2002
Tempo, um jovem rapaz.
O tempo é jovem fugaz. Se queremos contê-lo, foge por nossas mãos. Na ânsia que se vá, resiste. E os minutos tornam-se horas, as horas tornam-se dia, e esses dias... Ah! Esses dias são a eternidade.
De repente, nesta luta infinita, ele nos dá uma rasteira e passa voando por nossas costas: As flores já nasceram, o sol brilhou intenso, a lua então minguou,
as folhas já caíram, o tempo definhou.
O que lembraremos deste tempo todo? Que o tempo é jovem fugaz, e a vida...é efêmera demais.
Victor Gouvêa
Escrito por V & V às 16h01
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| 05/11/2009 |
Ecoando
Conversava com o eco E sorrindo me dizia Coisas que eu já sabia Mas não ousava pensar...
O eco, o ar, o ecoar. Catarses e epifanias, Remontam tamanha alegria Por não morrer sem tentar.
Victor G.
Escrito por V & V às 13h53
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| 26/10/2009 |
Entre as vistas Olham sua foto. Se é casado, se tem filhos e se mora longe. Se mora longe é um problema, pois, caso te contratem, dificilmente não vão querer pagar mais de uma condução para você. O serviço que vai desempenhar é supérfluo para a empresa (na visão dos contratantes), apesar de ser indispensável (senão não estariam contratando pessoas para essa função). Qualquer um que saiba ler e digitar pode exercê-lo. Certo, o anúncio muitas vezes diz “Perseverança, pró-atividade, garra e vontade de aprender”. Acredite, isso não é mensurável. Você pode estar repleto disso dentro de si e não conseguir convencer o p... do entrevistador que você tem essas qualidades. Tome um banho, faça a barba, corte as unhas, ajeite o cabelo, ponha sua melhor roupa, escove os dentes, bocheche um Listerine e prepare-se: você é descartável, muito mais do que imagina. Um grande abraço a todos! Callil
Escrito por V & V às 10h32
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| 16/10/2009 |
Egolópole Voltava eu, após um dia de chuva, cinza e frio, para casa. Não digo aqui que era um dia feio pois não acredito ser esse um adjetivo justo para os dias de chuva. Talvez esses sejam assim chamados por serem, eventualmente, frios, até solitários, mas feios, ah, isso nunca. O fato é que eu voltava da cidade universitária da metrópole paulistana para minha casa. Esse caminho exige um certo deslocamento burro, visto que é necessário ir até um ponto para fazer o mesmo caminho inverso depois. Não existe um transporte rápido da cidade universitária para alguns pontos da região sul/oeste da capital, como, por exemplo o sentido Campo Limpo, ou, até mesmo, para ser mais exato, as proximidades do shopping Butantã. No entanto, o que venho aqui salientar não é caminho a ser feito, tampouco a necessidade das conduções a se tomar para efetuá-lo. Enquanto sobrevivia a epopéia do primeiro ônibus, resolvi espiar a janela de trás. Estava sentado na última cadeira, e a maior (e melhor) janela do ônibus estava logo atrás de mim. Qual não foi meu regalo ao ver o crepúsculo que se compunha. A imagem projetada no céu oriunda das cores emanadas pelos últimos raios solares do dia eram dignas de uma pintura em tamanho real. Por um bom período de tempo, o barulho da entrada do Largo de Pinheiros não atingiu meus ouvidos, a beleza da menina sentada ao meu lado nada me dizia, o funk que tocava no alto-falante de um celular perdido pelo coletivo não alcançava a atenção de eu desprenderia outrora. Aquele por do sol, aquele resquício de vida inteligente na metrópole era ignorado pela maioria. Inicialmente, me senti um privilegiado. Entre tantos, nenhum se deparava com o espetáculo às suas costas, além de mim. Me senti diferente, de alguma forma, até melhor que os outros. Chegando em casa, perguntei à minha mãe “você viu o por do sol que teve hoje?” e ela me disse “Se vi! Deu um fim de tarde maravilhoso, o céu estava espetacular.”. Me senti sacaneado. Aquela era para ser uma percepção somente minha. Concordei com ela. No final da noite, antes de dormir, pensando nos acontecimentos do dia, lembrei do pôr do sol. Lembrei do que senti quando o vi. Lembrei do que senti quando minha mãe o viu. E percebi que tenho uma capacidade enorme de ser uma pessoa mesquinha, mas algo me conforta – tenho certeza que não sou só eu. Um grande abraço a todos!!! Callil
Escrito por V & V às 11h47
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| 04/10/2009 |
Constatações apaixonadas 
Passeava despreocupadamente pela Avenida Paulista às 6 horas da manhã de um domingo que acabava de começar. Os traços duros do concreto cinza já não pareciam mais tão ríspidos como outrora. Os tons coloridos se destacavam e ele se sentia absorvido por aquelas cores como elas se sentem pelos seus olhos. Na rua o cotidiano era o mesmo: Um carro batido e poucos policiais embuídos da mais pura má vontade, uma senhora perua correndo com seu cachorro que gostaria de estar dormnido, um casal sentado no ponto de ônibus trocando olhares de cumplicidade. Sinal abre, sinal fecha. Para o mundo nada tinha mudado. Para o seu mundo, nada era mais como antes. Andava vagarosamente enquanto admirava um feixe de luz que insistia em penetrar na parcial penumbra que cobria o céu daquela manhã nublada. Sentiu gotículas ínfimas tocarem seu corpo pouco a pouco, como se fossem pequenos toques de outros dedos. Se fosse durante a semana pensaria que aquela garoa que pincelava seus óculos e atrapalhava sua visão era dos ar-condicionados. Estava, então, definitivamente apaixonado. Não se importou com a demora do ônibus. Não ligou para a conversa estafante do bêbado. Não se resfriou com o vento gelado que somava à garoa o perfeito clima para um filme a dois. Sabia que a partir daquele momento sua vida estava mudada. Mas não queria pensar naquilo. Afinal, não é todo dia que se vive uma paixão. Victor G.
Escrito por V & V às 07h12
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| 21/09/2009 |
Ele, ela e a cadeira Na sala de jantar tinham três cadeiras. Uma para ele, outra (obviamente) para ela, a terceira era para uma possível visita. É certo que nunca haviam recebido visitas desde que se mudaram para aquele apartamento, e isso havia acontecido há dois anos, mas, de qualquer forma, a cadeira estava ali. Ainda que fosse só para completar a composição decorativa da sala, ainda que fosse para suprir o vazio que ficaria caso ela (a cadeira) não estivesse ali, ainda que estivesse pelo fato de ter vindo junto, no conjunto. É certo porém, que aquele espaço vazio, aquele móvel silencioso, despertava no casal diferentes esperanças. Ele dizia que ali, um dia, sentaria seu atual chefe e dono da empresa, numa futura ocasião, sócio. Ela sorria gostoso, um sorriso desses que a gente dificilmente esquece, e abençoava o que ele dizia. Apesar de seu sorriso, ela sonhava outras ocupações para aquela cadeira. Pensava que quando seu irmão voltasse da clínica de reabilitação, ele poderia morar ali, assim não precisaria voltar para a casa dos pais e ficar ouvindo as antigas conversas. Às vezes ia mais longe. Sonhava que um dia ali, sentaria uma criança, fruto da união dos dois (ele e ela). O fato é que o tempo passou. Os três ficaram velhos. Ele, ela e a cadeira. E no clichê do sonho não realizado, a cadeira foi praticamente esquecida. Com a troca dos móveis da casa no decorrer dos anos, a cadeira foi posta no quartinho do fundo - em frente a máquina de costura que era da vó dela - onde eles poucas vezes entravam durante o mês. É verdade que toda vez que eles entravam ali, fosse ele, fosse ela, olhavam com certa tristeza para a cadeira. Não pelo móvel estar ali, inutilizado. Não pelo móvel estar velho. Não por ele ter perdido a função que antes possuía. A tristeza que lhes batia (eles se igualavam nesse sentimento), era um tanto inexplicável. Vinha-lhes um sentimento de nostalgia, saudade, e, ao mesmo tempo, decepção. A cadeira era o símbolo do sonho que eles não realizaram. A cadeira é o símbolo de sonhos que, um dia, ao menos eles tiveram. Um grande abraço a todos Callil
Escrito por V & V às 11h50
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| 09/09/2009 |
Crônica do Sepulcro Passional Ela não sentia nenhuma dor pelo ocorrido. E o pior: tampouco sentia remorso por não encontrar-se absorta em sentimentos negativos. O marido ali, naquela situação, estendido sobre a caixa de madeira. Todos fitavam seus olhos, escondidos atrás de um Ray-Ban que ganhara do pai na viagem à Nova Iorque, à procura de lágrimas que nunca rolaram. Bem que forçou um pouco para tentar atender ao anseio do público à espera do líquido que verte dos olhos dos aflitos, mas não conseguiu. Para aqueles que vieram prestar suas condolências, comentava-se à boca pequena que ela estava apática, como ficam os que perdem seus entes queridos de forma tão abrupta. Mas não. Ela própria considerou a possibilidade, mas logo entendeu que o que sentia naquela sala com luzes intermediárias e um forte odor – das muitas coroas de flores que recebera – era equivalente a um simples lamento. Lamentava por não ter mais o café preparado por aquelas mãos, que o faziam como ninguém. Sentia pela falta que lhe faria ser hipnotizada por aquele riso único, mas que há tempos já não ouvia mais. Sentia mais por si mesma do que pelo defunto. E por si própria não poderia chorar, há que se acostumar, apenas. Olhou por algumas vezes aquele corpo frio e lembrou-se dele outrora quente sobre o seu. Lembrou-se de quantos momentos de intimidades foram compartilhados. Não sentiu saudades. Apenas suspirou e pensou consigo: “É, foi bom”. A esta altura, pode parecer a todos os presentes na cerimônia derradeira que esta é uma viúva sem coração. Com razão. Estamos acostumados às pirotecnias fúnebres, como a que fizeram a mãe e a sogra – do defunto, sua própria mãe. Não se sabe quem estava mais inconformada, pois o genro sempre disse que a sogra era sua segunda mãe. Se a situação fosse contrária seria digna de pena por ele. Sempre foi sentimentalista, melodramático, poeta, teatrólogo, Shakespeariano, notívago e artístico. Admirava-a como quem vê um Van Gogh pela vez primeira, justamente pela sua forma de encarar situações da vida de um jeito prático e insolúvel: o oposto de si. Certa vez conversavam na cozinha sobre temas Universais como a vida e a morte. Ele buscava a inspiração Aristotélica para fundamentar sua divagação, e ela lia os valores nutricionais do biscoito. Assim se complementavam e puderam viver tantos anos juntos. Mas ele sempre cultivou uma inexplicável loucura por ela maior do que o contrário. E pela Lei Geral dos Relacionamentos Amorosos, qualquer amante deve estar em sintonia quantitativa com o amado, para que não haja cobranças e desavenças posteriores em relação a isto. Quando baixou o caixão na terra, a viúva soltou um soluço, deixando todos com a impressão de que, naquele último momento, dera-se conta do que se passava e principiava um tímido lacrimejar. Engano. Soluçara por conta da gordurosa coxinha que comeu às pressas como almoço. Tinha para si que o amor havia acabado há muitas décadas, a admiração há muitos anos, a consideração há poucos meses e o resto de um sentimento há algumas horas. Porquanto, só lhe restava lamentar. Quando a última pá de terra foi despejada, agradeceu a presença de todos - como fazem os artistas no fechar das cortinas - virou-se nos calcanhares, e andou num passo apressado para pagar a conta antes que o banco fechasse e acarretasse em uma multa no dia seguinte. Para ela a vida continua. Victor G.
Escrito por V & V às 04h56
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| 01/09/2009 |
Ontem mesmo 
Ontem mesmo os elementos que suportam os acontecimentos desta história mudaram. O mundo era um conto linear. Coisas que faziam sentido a todos, não mais que de repente, deixaram de existir. A incerteza se apoderou da imagem do relógio que trago em meu pulso e o tempo, que antes me era uma ferramenta de controle, agora é palco e motivo de desatino em meus pensamentos. Desatino este oriundo da procura pela razão, não para a organização das idéias, mas pelo sossego da alma. Hoje dei um soco no estômago de meu reflexo no espelho. Sangraram os olhos do reflexo. Sangraram-me os dedos da mão direita. Um Grande Abraço a todos! Callil
Escrito por V & V às 23h26
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| 25/08/2009 |
Homenagem ao mestre

“Você faz tantos planos Fica voando em Aeroplanos Da imaginação Porque você não faz Do seu campo de pouso O aeroporto do meu coração” Jorge Mautner Um grande abraço a todos!! Callil
Escrito por V & V às 22h25
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| 04/08/2009 |
Olhos rápidos Ah, aqueles olhos, doces olhos! Que de atenção e confusão, na anti-prolixidade do dia a dia, se encontram em meio ao caos daqui. E se meu cotidiano não é doce ao menos aqueles olhos me são, ainda que rápidos, ainda que honestos em ser apenas educados, ainda que cegos ao outro lado de mim. Um grande abraço a todos! Callil
Escrito por V & V às 20h44
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| 01/08/2009 |
Ácido Às vezes o ácido sai nas palavras, nos gestos, na intenção. E disso tudo, só se enxerga a tentativa e, lá no fundo, a eterna dúvida. Solitude, atitude da alma em estar só, varre pra longe essa gente estonteada que vagueia esse mundo como as moscas sobrevoam a merda recém expelida e dê a elas outra merda a se fartar, esta lotou. Moral, abra a tampa dos esgotos, deixe livre as galerias, que os desgostos daqui podem sufocar até o mais bravo dos espíritos, até o mais prudente dos homens; é inútil resistir. Que a indulgência não venha pelos pecados que fiz, e sim, por aqueles que morreram em pensamento e que, moralmente, são muito piores por nunca terem sido feitos, mas arquitetados em perfeita sincronia apenas para que a doença da mente se satisfizesse. Um grande abraço a todos Callil
Escrito por V & V às 15h08
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| 10/07/2009 |
Morte à Brasileira 
Eu imaginava a platéia do lugar: - Que horas que ele vai entrar? - Não sei. Você conhece esses astros né?! Eles sempre atrasam para deixar o público na expectativa. - É verdade. Pô, mas essa é a última aparição dele, tinha que respeitar pelo menos hoje. - Bom, não podemos fazer nada, senão aguardar e se conformar. Não mais que de repente cantores, apresentadores e parentes começam a subir no palco para o show-funeral do homérico Michael Jackson. A morte do pop é celebrada (?) em grande estio, com músicos, lágrimas famosas, cobertura em rede MUNDIAL de televisão e internet e, até quem nada tinha a ver com o defunto, que não conhecia mais do que o seu poderoso Moonwalk, acabou se emocionando por osmose, tamanha foi a comoção mundial. Nunca fui fã de Michael e, sinceramente, não me diz muito a morte dele. Entendo a representatividade que isso tem para o “mundo da música pop” (essa expressão me faz sentir parte da edição da revista Capricho), entendo que milhões de pessoas eram apaixonadas por suas letras, sua dança, sua música e o conteúdo de suas atitudes. Acredito que isso tenha um valor (além do financeiro), e muito alto. Acredito também, que sua vontade de criar esteja sim, relacionada a um talento e capacidade de agir que o mercado fonográfico soube aproveitar muito bem, e, por que não, de certa forma, valorizá-lo (afinal, mesmo afogado em dívidas, nosso falecido possuía um patrimônio bastante invejável). Agora, o que chama a atenção é o funeral. É o show-funeral. É como se, quando o Ayrton Senna morresse, os brasileiros o tivessem colocado na reta final de um GP com a bandeira quadriculada anexada em seu caixão. Isso seria um absurdo, e, certamente, não daria para encarar como uma homenagem, ainda que fosse feito com a melhor das intenções. Mas, é claro, o mundo do esporte e o da música são completamente diferentes. O caixão ficava ali, cantores entravam e saíam, parentes choravam no microfone emocionados, a platéia não piscava. Parecia que, a qualquer momento o Michael se levantaria e começaria a acompanhar seus colegas de profissão. Mas isso não aconteceu. Esse show era irreversível. Alguns problemas com a reprodução dos alto-falantes, alguns momentos de silêncio por conta de falhas técnicas. Um momento inesperado de introspecção e respeito ao falecido tomou conta do ambiente, enquanto técnicos de som, trajando o uniforme da empresa contratada, se desdobravam em mil para poder dar continuidade ao espetáculo. Lágrimas e suor escorriam por todo lado. O show não pode parar (chavão). Paro, penso e desisto. Resolvo colocar os pés no chão. Sobre a morte? Não precisamos de exemplos estrangeiros para lidar com ela. Lembro-me de um poeta pernambucano brasileiro que escreveu sobre ela em sua obra Morte e Vida Severina. Depois, um compositor nascido no Rio (porém de infância paulista), musicou um trecho da obra. Me senti melhor, desliguei a TV. Mandei um egoísta “dane-se” ao Michael Jackson e fui retomar a leitura. O poeta: João Cabral de Melo Neto. O compositor: Chico Buarque. Abaixo, a morte à brasileira (e, porque não (?!), à realidade): Funeral de um Lavrador Esta cova em que estás com palmos medida É a conta menor que tiraste em vida É de bom tamanho nem largo nem fundo É a parte que te cabe deste latifúndio Não é cova grande, é cova medida
É a terra que querias ver dividida É uma cova grande pra teu pouco defunto Mas estás mais ancho que estavas no mundo É uma cova grande pra teu defunto parco Porém mais que no mundo te sentirás largo É uma cova grande pra tua carne pouca Mas a terra dada, não se abre a boca É a conta menor que tiraste em vida É a parte que te cabe deste latifúndio É a terra que querias ver dividida Estarás mais ancho que estavas no mundo Mas a terra dada, não se abre a boca. Um grande abraço a todos!! Callil
Escrito por V & V às 13h07
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| 22/06/2009 |
A cidade 
O concreto está repleto de paixão, na luxúria da imaginação imagino-o, toco-o, como se toca uma mulher sem pudor, com afeto, com fervor. O concreto tem histórias esquecidas pelas memórias dos que o construíram e seguiram por aí, como se nada houvesse por aqui. Como se a cidade existisse desde de o primeiro suspiro do tempo e resistisse ao último suspiro do homem. Um grande abraço a todos! Callil
Escrito por V & V às 19h36
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| 10/06/2009 |
Do lado de lá...

Passei o dia com o coração apertado. O barulho dos helicopteros não me deixava esquecer que, não muito longe de mim, alguma coisa estava errada. A cada explosão de bomba de efeito moral, que podia ouvir nitidamente, uma angústia me tomava. Eram 6 da tarde e eu estava na Universidade de São Paulo. Tão logo pude, fui ao encontro dos estudantes em uma assembléia enorme que fechava uma das principais vias de acesso do campus, e tinha um quê de protesto francês dos anos 60. Definitivamente, alguma coisa estava errada. É a repressão, que acontece um pouco desfigurada, pela falta de referência dos tempos da ditadura militar. Desde 1979 a Polícia Militar e o Batalhão de Choque não entravam na Universidade. Hoje, aqueles homens jogaram bombas de gás lacrimogêneo contra pessoas que lutavam por algo melhor. E isto foi o suficiente para me deixar muito, mas muito decepcionado, e porque não dizer, triste. Não com o governo, pois deste já não espero mais paternalismos e tampouco afagos. É uma criança mimada que só consegue vislumbrar o interesse que a máquina gire. Minha completa e absoluta decepção é com todos aqueles que calam, sorriem, xerocam, estudam, comem coxinha, avançam o sinal fechado, acendem um cigarro, urinam, exercitam-se, e tocam suas vidas como se nada estivesse acontecendo. Não podemos jamais reclamar da atual situação do país: Somos 190 milhões de coniventes, pela mais pura conveniência. Os maiores aborrecimentos que presenciei, eram relativos ao trânsito que se formava como consequência. O movimento estudantil também se perdia, apoiados em siglas que não tomam borrachadas. Minha vontade era conversar com cada policial que empunhava seu escudo, explicar o porquê de tudo aquilo estar acontecendo, e, quem sabe assim, convencê-los que o que estão fazendo é muito injusto. Mas eles só cumprem ordens. Me sinto tão impotente! Tenho uma consciência absurda do que acontece, mas não consigo fazer meu grito ecoar. Com o movimento cada vez mais esvaziado e sem credibilidade - e não isento-os da culpa disto ter acontecido, por apegarem-se tão fortemente a teorias retrógradas - fica cada vez mais difícil argumentar com uma massa pensante, torná-la disposta a tomar atitudes em prol da mudança e expressar claramente o descontentamento. Não vejo mais solução. Tudo o que acontece, só acontece pela falta de princípios e caráter de alguns, e isto é incorrigível. Antes de ir embora passei ao lado do choque da polícia, que dava cobertura a um senhor que falava energicamente em frente à imprensa, afoita por informações que nunca chegarão completas aos ouvidos da população. Ouvi este senhor dizer que "a democracia estava sendo ferida em suas bases, e a falta de ordem não poderia continuar a acontecer na Universidade". Ele foi aplaudido por uma dúzia de estudantes que tomavam as dores da polícia. Não há mais nada a ser dito. Todos voltarão em breve a calar, sorrir, estudar, xerocar, comer coxinhas, avançar o sinal fechado, acender um cigarro, urinar, exercitarem-se e tocar a vida como se nada tivesse acontecido, porque infelizmente, mais uma vez, nada aconteceu.
Escrito por V & V às 00h30
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| 07/06/2009 |
A dança Ela dançava. E tudo o que está por ser escrito abaixo se preocupa em resumir o ato tão sublime que era aquilo. Ela dançava. De certo tinha alguma prática profissional nisso, pois dançava muito bem. Girava e se movimentava como se o chão fosse de algodão. Como se o impacto de seus pés no cimento não surtisse efeito algum em suas articulações. Teus cabelos eram claros, teu rosto simétrico, tua roupa exata. Sim, era bela. Mas não era esse o seu principal encanto. Sua dança falava por si. A alegria expressa em seu rosto a cada rodopio fazia claro o amor aos movimentos. Nos limites de seu giro, o cabelo se debatia com alguns dançantes próximos. Não se perturbavam, não a perturbavam. Quem seria capaz de arrancar os pincéis do artista em meio a sua obra? Que seria capaz de pedir por silencio em meio a um concerto? O mundo girava lento e devagar, e ela, sem pressa, se deleitava com isso. Ao seu redor, divididos em pontos estrategicamente não-combinados, estavam alguns homens. Estes a veneravam como deusa. Não, não era sua dança que observavam. Era seu corpo, que, abençoado com as curvas da beleza, era alvo dos olhares mais instigantes que um homem pode dar. E ela não dava conta (ou fingia não dar), e continuava a flutuar ao som da banda que se apresentava ao fundo. A distância era quase quilométrica, contudo não estavam entre nós mais de 4 metros. Quase me eram necessários binóculos para acompanhar o compasso de suas pernas, o giro de seus cabelos, os dentes de seu sorriso. Mas este hiato, apesar de grande, me permitia a observação (e porque não, a admiração). A música acabou, ela foi embora e, a caminho da saída, esbarrou em meu ombro. Nesse momento pude sentir o perfume e o cheiro de seu corpo. Fotografei o sentido. A distância novamente se apoderou de nós, surgiu-me este clichê.
Um grande abraços a todos
Callil
Escrito por V & V às 22h21
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| 25/05/2009 |
Veneno Divino Eu te diria se soubesse, que o passado realmente a gente esquece, aliviando as dores da solidão, e o vazio, mas pra mim as coisas mudaram, de diferentes caminhos pra diferentes atalhos, pois o que minha mente projeta, me aprisiona, me liberta, como um torpor que enlouquece. Por vezes desvairado me condeno, perguntando, respondendo, mesmo sem ter o que dizer, sobre o nosso amor que foi lindo, hoje é nectar divino, e a um só tempo veneno, que necessito beber. E quanto mais me lastimo, mais de teu ser me aproximo, esperando sei la o quê. E a cada reencontro, transforma-se o meu mundo, meu ser, meu eu que ainda não te esqueceu e recomeça a sofrer. Esquecer: eis um mal que me faz bem, ou um bem que me faz mal. Mas em meio a tanta incerteza, eu não descarto a beleza de recordar pra viver, ou viver pra recordar, pois quem amou feito eu, e do amor as melhores emoções viveu, jamais deixará de amar. Este poema é da minha avó, Therezinha Gouvêa, e está em seu livro, "Adentrando meu Ser". Nem é o mais conhecido, mas eu acho muito bonito, como muitos outros que nasceram da inspiração e do amor desta grande artista que nos deixou hoje. Leva, com certeza, muito da minha história, e devo a ela muito da minha inspiração. Obrigado... Victor G.
Escrito por V & V às 19h11
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| 21/05/2009 |
Aos meus amigos Estou entre uns e outros e tu estás entre tantos. Dos tantos que estás entre, sou mais um e outros hão de vir ao teu encontro. Mas, ah, meu grande amigo! Como é bom saudar-te, vê-lo banhado em alegrias, sorrindo a torto e a direito das besteiras do alheio. Como é bom não ter receio das palavras que lhe digo, quando penso, falo, inspiro e não sinto-me ridículo. Das conversas infinitas ou das coisas mais bonitas são belas as lembranças do prazer de estar contigo, prezado ser humano, meu caro amigo.
Um grande abraço a todos!!
Callil
Escrito por V & V às 22h23
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| 15/05/2009 |
Não sobre o amor 
O amor engana os imbecis. Deus! Como há imbecis no mundo. É impressionante. Me coloco ao meio deles, pois, em matéria de amor, sou um asno, um estúpido. O amor não se faz cruel por dissimular corações, atrair a mente memórias que, com o seu fim tornam-se histéricas dores. Não chamo de maligno o amor pelo fato de ele extrair lágrimas dos mais duros olhos, por ele dar cor com sua ternura aos mais escusos espíritos, e depois devolvê-los à miséria antes habitual. O personagem do qual falo é muito pior. O dito cujo se faz monstro pelo seu sadismo, sua concorrência com todos os outros sentidos que aguçamos quando adoecemos. Faz sofrer, faz querer esse sofrimento, faz querer morrer para não mais sofrer. Faz doentes aqueles que sempre estiveram em sã consciência dos acontecimentos acerca de si. E faz são aquele que, louco de amor e cego de juízo, de razão, se entrega àquela que lhe convém, e, se engana, quando não convém mais a ela. Os papéis podem se inverter. Isso sem contar os sonhos. Os malditos sonhos que desabrocham em esperança, e, depois disso, quando a rasteira lhe é bem dada, transfiguram-se em desilusão, desengano, e todas as outras palavras existentes com o prefixo “des” que sugerem um contraponto à felicidade. Os sonhos que tiveste um dia foram amassados e lançados à lixeira mais próxima, que é aquela que representa o vazio que é sonhar sozinho o sonho dos casais. Quisera eu que este sentimento tivesse o equilíbrio e os desdobramentos sutis dos quais nos ensina Ovídio. Quisera eu ser alheio à dor, renunciar a mim e aos outros para o meu próprio bem e para o bem deles, assim como orienta Sêneca. Quisera eu tratar do amor como o vômito do qual nos alimentamos pelo simples prazer de comer o próprio vômito, como sugere Bukowski. Sou apenas mais um dos estúpidos desse mundo. E o amor? Ah, esse ainda me paga...
Gnomo
Escrito por V & V às 11h14
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| 27/04/2009 |
Virada Cultural 2009! Está Chegando! 
E aí galera Tecotequeira! Semana cultural agitada na capital paulista! Para quem não sabe - acho difícil que isso possa acontecer - nos dias 2 e 3 de Maio acontecerá, em diversos locais da cidade de Sampa, a Virada Cultural! A Virada é uma iniciativa da Secretaria de Cultura do Município com o apoio da SPTuris, e vem há 5 anos realizando shows, espetáculos teatrais, dança, saraus e muitas outras atrações refinadas em 24 horas de programação,tudo gratuitamente. O mais tocante deste evento, devo dizer como participante, é perceber a interação de públicos totalmente diferentes em eventos que os une de alguma forma. Com um histórico de sucesso e apenas um incidente de violência, no ano de 2007, a Virada se propõe a levar a cultura o mais longe possível, e consegue. Toma conta da cidade inteira em um clima agradabilíssimo, onde pessoas circulam pelo Centro de São Paulo até altas horas da noite, e ninguém se sente intimidado: Nem os habituais moradores de rua pela multidão, nem a multidão pelo cenário pouco convidativo dos dias de semana. Vale lembrar, também, que a Virada Cultural tem o objetivo de revitalizar o centro histórico de São Paulo. Este é um tópico a ser discutido mais à frente, até sobre o próprio conceito de revitalizar, afinal se revitaliza algo que não tem vida, não é mesmo? Acredito que o Centro tenha muita vida. Contudo, não é a mesma vida elitista que ocupava aquelas regiões outrora. Por fim, venho convidar a todos que não deixem de participar deste maravilhoso evento. É impossível ir uma vez só! Se você não tem com quem ir, não se limite: É fácil conhecer pessoas interessantes pelas ruas com quem possa desfrutar junto deste megaevento.
Para mais informações sobre a Virada e a programação completa, acesse o site oficial: http://viradacultural.org/ O Teco estará lá!
Grande Abraço!
Victor G.
Escrito por V & V às 11h59
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| 24/04/2009 |
Manual do Canceriano ou Paixão Diária
Não sei não me apaixonar. Sou um apaixonado inveterado! De coração maltratado, E ilusões sazonais...
Escrito por V & V às 02h13
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| 16/04/2009 |
Depois da chuva Depois da chuva ainda existem certas coisas a se dizer. Não remoer, nem justificar, apenas dizer. 
Nos mares daqui E nos mares daqui os barcos não param em pé num quiprocó de balancês, num engodo à imaginação apontam rumo ao abismo das cataratas da incerteza dos mares que virão até o poente, ainda assim, o caminho é um só. Um grande abraço a todos Gnomo
Escrito por V & V às 15h44
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| 05/04/2009 |
Dualidades Entre dúvidas e incertezas, Entre amores e sutilezas, Entre horrores e avarezas, Entretantos e suas belezas. Entre a cruz e a espada, Entre a vida e a sacada, Entre impulsos e rebocadas, Entre afagos e bordoadas. Entre mim e ti só basta, Entre Deus e nós, ninguém, Entre perto e longe, afasta, Entre solto e preso, refém. Entre o poder e o querer, Entre o querer e o fazer, Entre o fazer e o aceitar, Entre o aceito e o pensar... Entretanto, somos só nós, Entre tantos outros a sós, Entre o silêncio todo e a voz, Entre o agora, o antes e após. Entre expectativas e desencontros, Entre vírgulas, reticências e pontos, Entre prosas versos e contos, Entre teus olhos, eu me desmonto. Victor G.
Escrito por V & V às 01h40
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| 29/03/2009 |
A seco Qual não é a dor ao me olhar no espelho. Não me vejo. Algo que ficou entre o que era e o que foi, mas que, esquisitamente, não existe é o que sobrou. Vômito de coração, rotulado solidão, impotência do ser de ser ou, até mesmo, não ser. Perco-me no ar. Este ar não é meu, nem seu, tudo o que ficou no ar é dele até que suma de quem ficou com a dor, com o espelho, com o desespero. E que a lembrança se desfaça num breve sorriso amarelo da pena de não ter sido. As ursas me enganaram. Gnomo
Escrito por V & V às 01h49
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| 19/03/2009 |
O velho e o porto. O porto velho. 
Naquela época os aviões não existiam. Não sei bem dizer que época era essa, mas o que se faz importante é o motivo pelo qual aquele velho sentava naquele banco. Frente ao porto. Frente aos navios. Frente aos barcos. Todos os dias ele se sentava ali. Pessoas com o coração na mão embarcavam em gigantes marinhos para cruzar o oceano e o velho as observava. Ele nunca havia sentado em outro banco. Nunca quis isso. Também nunca chegou mais perto dos navios do que aposentado ali, naquele velho banco enferrujado. Às vezes o velho levava um jornal ou um livro. Lia-os durante o pré-embarque, mas, quando o apito do navio soava, ele parava o que estava fazendo e, imóvel (quase sem piscar), observava as pessoas dando adeus umas as outras. Se emocionava (apesar de não transparecer) com tudo isso. Amantes, famílias, amigos, todos se desepediam. Ele dizia adeus junto. Cada dia o velho se despeia de um fragmento de si mesmo. Acredeitava que, naqueles navios (dos quais ele sequer imaginava o destino) ia uma parte de si. Não, o velho não era louco e se assim o considerassem, não faria muita diferença para ele. A parte intrigante é que, quanto mais se despedia, mais pleno de si se sentia o velho. Perguntava-se “Como? Estou ou não indo? De que me vale sentar aqui todos os dias se não me vejo partir? Se não me sinto incompleto pela parte que me abandonou e me abandona dia após dia nestes navios?”. O velho tinha lá sua teoria. Pensava que, se fosse se despedindo aos poucos de si, dia após dia, parte a parte, quando a morte chegasse de fato, ele não sentiria medo, dor ou angústia. Ele, na verdade, nunca tinha estado na iminência de morrer, mas pensava com freqüência nisso. Não por se preservar à morte, mas por achá-la interessante e, até mesmo, curiosamente atrativa. Porém o velho não queria se matar. Não. Se ele nasceu de forma espontânea, queria partir desse mesmo jeito. Na verdade ele se questionava um pouco sobre isso. Entendia também que, o fato de desejar a morte, não faz dela algo artificial ou menos louvável (sim, ele acreditava que a morte era algo louvável). Ele à esperava, como alguém que espera a visita de um amigo ou um parente distante e, enquanto à esperava, se despedia. Às vezes (e isso era segredo seu), o velho solitário, fazia café para dois, acreditando que a morte viria na forma de uma pessoa, entraria na sua casa e tomaria uma xicará de café com ele. Enquanto isso, ele contaria a ela sobre a sua vida, os prazeres, os dissabores, as dores, as lembranças. Ele não queria que a morte fosse impessoal à sua história. Queria que ela soubesse o valor daquele que estava levando consigo. Não queria também ser inimigo dela, fugir ou tentar escapar. Não, ele não pensava “se não pode vencer junte-se a eles”. Na verdade ele acreditava que a morte poderia ser um ser fabuloso, acumulado de conhecimentos e virtudes de quem só que conheceu tudo e todos pode ter. Às vezes acreditava que ela era a face mais humana de Deus. Ele dá, ela tira, ele tira (e não é um vilão por isso, talvez um dia, ele também morra). Certo dia, ao voltar do cais e preparar seu café para dois, a campaninha tocou. Ele não pode deixar de pensar, ou querer, que quem tocava vinha para buscá-lo. Mas não. Era sua filha, que morava em outra cidade e já não lhe mandava notícias há alguns anos, após a última briga entre eles. Ela havia vindo lhe dizer que iria casar. Ia se mudar para outro continente e, que seu navio, partiria do porto da cidade de seu pai. Para ele essa notícia não tinha lá tão grande importância. Na realidade, sua filha não tinha muita importância. O velho, não por rancor, decidiu que, em seus últimos anos de vida, iria somente se ter consigo. Sem buscar o afeto ou a segurança da vida em outras pessoas. A conversa com sua filha foi tranquila. Já não tinha mais raiva dela, porém também não encontrava dentro de si, o amor que ela o despertou quando nasceu. Não estava indiferente ao seu casamentou ou à sua partida, mas não se sentia feliz por ela. A filha, por sua vez, também não foi contar ao velho para que ele abençoasse o casamento ou coisa parecida. Tampouco foi chamá-lo para a festa ou cerimônia. Foi apenas avisá-lo de sua partida, e só. Depois da visita, a filha não voltou a procurá-lo. No dia marcado para a sua partida, o velho, como sempre (e não pela sua filha), foi até o porto. Sentou no mesmo banco de sempre, o qual, por ventura (boa ou ruim), ficava bem em frente ao navio de sua filha. Ele conseguiu avistá-la no barco. Viu também que, ao seu lado, estava um homem relativamente alto, de chapéu, que passava a mão por sobre os seus ombros. Viu também uma criança entre eles. Sua filha acenou, mas ele não respondeu. Apenas manteve o olhar fixo e atônito, como sempre o fez. Quando o navio mal saiu do porto, levantou e saiu. Neste dia, fez café apenas para um. A campainha tocou. Um grande abraço a todos. Gnomo
Escrito por V & V às 14h52
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| 14/03/2009 |
A burca de todo dia Ao caminhar pela calçada não nos vemos. Olhamos para frente, olhamos para o lado, mas não nos vemos. Não é esta desatenção (ou até indiferença ao alheio) sinal de arrogância. Não. Existe um complexo conjunto de elementos que faz com que nos sintamos assim. Sós. Olhamos para os outros e sabemos o mesmo, estão sós. A solidão em conjunto. Não são as pessoas que a escolhem, mas a cidade que a impõe como condição de suportar a vida com os estrangeiros de nosso universo (particular). O mundo, hoje determinado como dinâmico, já foi estático, ou seja, parado. Às vezes, calha-me a perguntar, “como era esse mundo estático?”, “quem nele vivia?”, “quais diferenças são tão salientes (aos olhos dos outros e não dos meus), dos que no passado habitavam esta terra que hoje é nossa?”. Subitamente, tenho a impressão de que a noção de “estático” ou “não estático” está ligada a um subjetivo comum, que, de tanto se repetir por bocas e bocas, acaba virando uma opinião popular, o que, por sua vez, faz com que vivamos (e não mais apenas pensamos em viver) num mundo “não estático”. O que então nos faria pensar em todo esse movimento? Seria somente o excesso de informações que a tecnologia proporciona? Seria a capacidade de compreensão do contexto o qual estamos inseridos, ocasionada por “avanços” científicos, políticos e sociais? De repente paro, penso. Por que essa ânsia de encaixar tudo em sistemas perfeitos? Qual a garantia disso? Cria-se um sistema econômico onde se pode, através de técnicas relativamente ousadas, prever determinadas situações. Situações essas que definem o futuro de um número incontável de pessoas. Pessoas estas que, sequer, fazem idéia de como suas vidas estão relacionadas a um jogo, que, muitas vezes não sabem que existe, nem a sua relevância para o mundo. Não, não. A idéia não maldizer ou amaldiçoar sistemas econômicos, praguejar contra figuras públicas ou inventar revoluções. O que assusta, é a falta de controle que fingimos não ter sobre um futuro que imaginamos que possa existir. Essa falta de controle, sei bem, me assusta, justamente, pelo fato de que, desde que nascemos, somos orientados a planejar, se programar, se cuidar, para que, no futuro, possamos encarar possíveis crises e problemas sem nos degradar demais. Ou seja, não temos controle sobre a situação, sabemos disso, mas fingimos não saber. Baseamos nossa vida em cima de hipóteses sobre a real finalidade dela e pronto: surge um norte e um motivo para buscar a felicidade. E tocamos a vida, cegamente, negligente ao tempo que corre a nossa volta, acreditando que algo maior virá, e enquanto isso, sejamos cegos aos outros. Drummond não se equivocou ao perguntar “E agora José?”. Não, ele foi certeiro à chave da questão. Não falo para sairmos por aí a cheirar flores e cantar a alegria de estar vivo pelas ruas. Falo sobre a consciência de que o que se apresenta é muito maior do que parece ser. Muitos elementos são meios em nossa vida para alcançarmos coisas bem maiores. Coisas estas que não são paupáveis ou tangíveis. Estão na criação de uma consciência sobre algo muito grande e que, na melhor das hipóteses, está oculto no ar que respiramos. Mas a vida se toca, e, inconseqüentes, continuamos a andar nas ruas sem ao menos nos ver. Um grande abraço a todos, Gnomo
Escrito por V & V às 10h20
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| 07/03/2009 |
Soneto da Realidade De todas as incertezas pelo caminho, De todos os riscos por não estar sozinho, De todas as vezes que sonhei com seu carinho, Sob luz de velas, na companhia de um bom vinho... De tudo aquilo que antes dissemos, De tudo o que ainda quisermos, Por toda intensidade do que vivemos, De todo sorrir que já tivemos... De tudo o que prometemos, Das juras que proferimos, Dos desejos que não contemos... Só sei que se essa vida compensa, E nenhuma explicação dispensa, Ela com certeza se chama você.
Victor G.
Escrito por V & V às 15h10
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| 24/02/2009 |
Sobre a Inconstância 
Sobre a inconstância não há o que dizer, é inconstante e só. Pode ser o medo do que há de vir ou do que fica sem certeza de ficar e só. Sobre a inconstância, palavras não dizem, olhares não olham, conversas nada são. Sobre a inconstância, reconheço o pesar das coisas animadas ou não que, alegremente, se firmam em ser coisas e só. É só. Talvez sorte. Sobre a inconstância não se pode desafinar, abater-se ou definhar em solidão. O cansaço não pode maestrar o corpo, nem a mente sufocar a alma, pois, da angústia não se faz futuro, só buraco, que de escuro não se vê o fundo, se é que existe. Sobre a constância não há o que dizer, ela pode ser monótona. E só. Um grande abraço a todos!! Gnomo
Escrito por V & V às 17h45
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| 09/02/2009 |
18 horas Faz relativamente pouco tempo que cá estou. Voltei, é verdade. Não me sinto fora do meu universo aqui, não me sinto fora de mim. Na realidade, me sinto bem à vontade neste lugar e, se não fosse as 18 horas, eu nem estaria nem escrevendo esta carta. Por essas bandas, a solidão tem andado de mãos dadas comigo todos os dias. Não, não é ser piegas, falo a verdade. É melhor se sentir só quando se está de fato isolado, do que no meio desse tanto de gente. Aqui, depois do dia todo, às 18 horas, somos todos iguais, quer dizer, isso quando somos, pois, na maior parte das vezes abdicamos do direito de ser, para simplesmente voltar para casa. O cansaço bate é na segunda feira mesmo, os outros dias são espelhos. A esperança é, um dia, olhar por outra janela, dormir em outra cama, olhar para outro céu, se refrescar em outra chuva, sentir outros ventos, olhar outro alvorecer, ouvir outras coisas que não motores e buzinas, construir outros horizontes que não me forcem a querer a maldita 18 horas. Mas tudo isso, toda essa esperança, digna de planos futuros, só me fazem sentido com ela, senão, que diferença faz se os carros buzinam, se a chuva molha, se o sol se põe? A mesmice já está consumada na solidão, eu não. Um grande abraço a todos! Gnomo
Escrito por V & V às 22h33
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BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Homem
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Histórico
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