(Co)Existindo
Definitivamente a vida não era mole pra ela. Acordava todo dia antes do sol nascer pra poder levar o filho pra creche. Tinha um marasmo no olhar quando cruzava a catraca cansada do metrô carregando o filho, já um tanto pesado, no colo. E então tomava mais duas conduções, muitas vezes de pé, olhando pro horizonte cinza da capital paulista. Chegava cedo, antes de todo mundo. Só encontrava o vigia da noite. Abria as portas, desligava o alarme em menos de 30 segundos para não disparar, abria as janelas, bocejava, destrancava os banheiros, fingia não se importar.
Mais tarde assistia a chegada dos primeiros interessados, dava as mesmas informações, e tornava tudo enfadonho em muito pouco tempo. Ouvia uma ou duas reclamações do curador do museu, que sempre passava pra ver "como estavam as coisas". Fazia a pausa para o almoço, e comia sua marmita amornada no fogareiro da apertada copa. Tinha que deixar tudo muito limpo para os outros não se darem o direito de deixar sujo, até porque não queria ouvir reclamação do pessoal da limpeza. Volta e meia arrastava-se ao banheiro, deixando o segurança em seu lugar por alguns minutos, que pareciam eternos. Pensava que era de seu direito urinar ou defecar de vez em quando, e não se sentia mal por abandonar o posto.
No fundo nunca entendeu que graça tinha aquele museu. Umas pinturas feias, que até o seu filho de 5 anos já esboçava melhor na creche. Umas esculturas sem sal nenhum, e muita gente chata. Ela não encaixava naquele lugar, não se via parte daquilo. Até por isso entendia difícil gostar do que estava fazendo. Mas não se incomodava. Aqueles oitocentos reais, mais os benefícios, ajudavam em casa, e assim não era mais obrigada a escutar do marido que ela era um peso. Podia fazer uma regalia de vez em quando, porque o marido chegava bêbado em casa também. Quando isso acontecia, se irritava, ia pra liquidação das grandes lojas, e parcelava eletrodomésticos em doze vezes sem juros. Acabou ficando amarga.
Mas teve uma tarde que chegaram dois rapazes. Perguntaram uma pergunta idiota. Ela deu uma resposta atravessada e voltou a olhar o que fazia. Eles não disseram nada. Mas como podiam? Porque não armaram uma grande cena ali? Ela fora deveras grossa com eles! Talvez quisesse um pouco de atenção. Uma angústia tomou conta de sua cabeça, e percebeu como havia se tornado rude. Ficou ruminando seus pensamentos por muito tempo, e já não conseguia se concentrar na velocidade lenta que as horas passavam. Só pensava em quão rígida havia se tornado sua existência. Não que tivesse um grau de consciência de si mesma tão grande, mas foi acometida por ele de forma abrupta e intensa.
Os dois rapazes voltaram, e ela tentou ser mais simpática. Respondeu sem agressividade, e desta vez, dedicando certa atenção aos dois. Eles foram embora sem dizer nada novamente. Ela ficou sem entender. Não sabia mais se os dois eram pamonhas, se ela não sabia mais ser educada, ou se sua existência não fazia nenhuma diferença para aqueles que frequentavam o local, e mesmo sua vida. Tomou para si que não possuia importância no mundo. Dada a hora de ir embora, não queria voltar para casa. Não queria saber de buscar o filho na creche, nem de fazer a janta para o marido que chegava tarde do trabalho. Não queria mais saber de pagar contas, nem de parcelar eletrodomésticos, nem de ser estúpida ou educada. No maior lapso de auto-consciência de sua vida, entendeu que esta não tinha utilidade para o mundo. Pegou o filho na creche, fez a janta para o marido e foi deitar mais cedo que o costume. O dia havia sido estafante.
Victor G.
Escrito por V & V às 23h28
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