A burca de todo dia Ao caminhar pela calçada não nos vemos. Olhamos para frente, olhamos para o lado, mas não nos vemos. Não é esta desatenção (ou até indiferença ao alheio) sinal de arrogância. Não. Existe um complexo conjunto de elementos que faz com que nos sintamos assim. Sós. Olhamos para os outros e sabemos o mesmo, estão sós. A solidão em conjunto. Não são as pessoas que a escolhem, mas a cidade que a impõe como condição de suportar a vida com os estrangeiros de nosso universo (particular). O mundo, hoje determinado como dinâmico, já foi estático, ou seja, parado. Às vezes, calha-me a perguntar, “como era esse mundo estático?”, “quem nele vivia?”, “quais diferenças são tão salientes (aos olhos dos outros e não dos meus), dos que no passado habitavam esta terra que hoje é nossa?”. Subitamente, tenho a impressão de que a noção de “estático” ou “não estático” está ligada a um subjetivo comum, que, de tanto se repetir por bocas e bocas, acaba virando uma opinião popular, o que, por sua vez, faz com que vivamos (e não mais apenas pensamos em viver) num mundo “não estático”. O que então nos faria pensar em todo esse movimento? Seria somente o excesso de informações que a tecnologia proporciona? Seria a capacidade de compreensão do contexto o qual estamos inseridos, ocasionada por “avanços” científicos, políticos e sociais? De repente paro, penso. Por que essa ânsia de encaixar tudo em sistemas perfeitos? Qual a garantia disso? Cria-se um sistema econômico onde se pode, através de técnicas relativamente ousadas, prever determinadas situações. Situações essas que definem o futuro de um número incontável de pessoas. Pessoas estas que, sequer, fazem idéia de como suas vidas estão relacionadas a um jogo, que, muitas vezes não sabem que existe, nem a sua relevância para o mundo. Não, não. A idéia não maldizer ou amaldiçoar sistemas econômicos, praguejar contra figuras públicas ou inventar revoluções. O que assusta, é a falta de controle que fingimos não ter sobre um futuro que imaginamos que possa existir. Essa falta de controle, sei bem, me assusta, justamente, pelo fato de que, desde que nascemos, somos orientados a planejar, se programar, se cuidar, para que, no futuro, possamos encarar possíveis crises e problemas sem nos degradar demais. Ou seja, não temos controle sobre a situação, sabemos disso, mas fingimos não saber. Baseamos nossa vida em cima de hipóteses sobre a real finalidade dela e pronto: surge um norte e um motivo para buscar a felicidade. E tocamos a vida, cegamente, negligente ao tempo que corre a nossa volta, acreditando que algo maior virá, e enquanto isso, sejamos cegos aos outros. Drummond não se equivocou ao perguntar “E agora José?”. Não, ele foi certeiro à chave da questão. Não falo para sairmos por aí a cheirar flores e cantar a alegria de estar vivo pelas ruas. Falo sobre a consciência de que o que se apresenta é muito maior do que parece ser. Muitos elementos são meios em nossa vida para alcançarmos coisas bem maiores. Coisas estas que não são paupáveis ou tangíveis. Estão na criação de uma consciência sobre algo muito grande e que, na melhor das hipóteses, está oculto no ar que respiramos. Mas a vida se toca, e, inconseqüentes, continuamos a andar nas ruas sem ao menos nos ver. Um grande abraço a todos, Gnomo
Escrito por V & V às 10h20
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