Tecoterecoteco e outros Devaneios

19/03/2009

O velho e o porto. O porto velho.

Naquela época os aviões não existiam. Não sei bem dizer que época era essa, mas o que se faz importante é o motivo pelo qual aquele velho sentava naquele banco. Frente ao porto. Frente aos navios. Frente aos barcos.

                Todos os dias ele se sentava ali. Pessoas com o coração na mão embarcavam em gigantes marinhos para cruzar o oceano e o velho as observava. Ele nunca havia sentado em outro banco. Nunca quis isso. Também nunca chegou mais perto dos navios do que aposentado ali, naquele velho banco enferrujado. Às vezes o velho levava um jornal ou um livro. Lia-os durante o pré-embarque, mas, quando o apito do navio soava, ele parava o que estava fazendo e, imóvel (quase sem piscar), observava as pessoas dando adeus umas as outras. Se emocionava (apesar de não transparecer) com tudo isso. Amantes, famílias, amigos, todos se desepediam. Ele dizia adeus junto.

Cada dia o velho se despeia de um fragmento de si mesmo.  Acredeitava que, naqueles navios (dos quais ele sequer imaginava o destino) ia uma parte de si. Não, o velho não era louco e se assim o considerassem, não faria muita diferença para ele. A parte intrigante é que, quanto mais se despedia, mais pleno de si se sentia o velho. Perguntava-se “Como? Estou ou não indo? De que me vale sentar aqui todos os dias se não me vejo partir? Se não me sinto incompleto pela parte que me abandonou e me abandona dia após dia nestes navios?”. O velho tinha lá sua teoria. Pensava que, se fosse se despedindo aos poucos de si, dia após dia, parte a parte, quando a morte chegasse de fato, ele não sentiria medo, dor ou angústia. Ele, na verdade, nunca tinha estado na iminência de morrer, mas pensava com freqüência nisso. Não por se preservar à morte, mas por achá-la interessante e, até mesmo, curiosamente atrativa.

Porém o velho não queria se matar. Não. Se ele nasceu de forma espontânea, queria partir desse mesmo jeito. Na verdade ele se questionava um pouco sobre isso. Entendia também que, o fato de desejar a morte, não faz dela algo artificial ou menos louvável (sim, ele acreditava que a morte era algo louvável). Ele à esperava, como alguém que espera a visita de um amigo ou um parente distante e, enquanto à esperava, se despedia. Às vezes (e isso era segredo seu), o velho solitário, fazia café para dois, acreditando que a morte viria na forma de uma pessoa, entraria na sua casa e tomaria uma xicará de café com ele. Enquanto isso, ele contaria a ela sobre a sua vida, os prazeres, os dissabores, as dores, as lembranças. Ele não queria que a morte fosse impessoal à sua história. Queria que ela soubesse o valor daquele que estava levando consigo. Não queria também ser inimigo dela, fugir ou tentar escapar. Não, ele não pensava “se não pode vencer junte-se a eles”. Na verdade ele acreditava que a morte poderia ser um ser fabuloso, acumulado de conhecimentos e virtudes de quem só que conheceu tudo e todos pode ter. Às vezes acreditava que ela era a face mais humana de Deus. Ele dá, ela tira, ele tira (e não é um vilão por isso, talvez um dia, ele também morra).

Certo dia, ao voltar do cais e preparar seu café para dois, a campaninha tocou. Ele não pode deixar de pensar, ou querer, que quem tocava vinha para buscá-lo. Mas não. Era sua filha, que morava em outra cidade e  já não lhe mandava notícias há alguns anos, após a última briga entre eles.  Ela havia vindo lhe dizer que iria casar. Ia se mudar para outro continente e, que seu navio, partiria do porto da cidade de seu pai. Para ele essa notícia não tinha lá tão grande importância. Na realidade, sua filha não tinha muita importância. O velho, não por rancor, decidiu que, em seus últimos anos de vida, iria somente se ter consigo. Sem buscar o afeto ou a segurança da vida em outras pessoas.

A conversa com sua filha foi tranquila. Já não tinha mais raiva dela, porém também não encontrava dentro de si, o amor que ela o despertou quando nasceu. Não estava indiferente ao seu casamentou ou à sua partida, mas não se sentia feliz por ela. A filha, por sua vez, também não foi contar ao velho para que ele abençoasse o casamento ou coisa parecida. Tampouco foi chamá-lo para a festa ou cerimônia. Foi apenas avisá-lo de sua partida, e só. Depois da visita, a filha não voltou a procurá-lo.

No dia marcado para a sua partida, o velho, como sempre (e não pela sua filha), foi até o porto. Sentou no mesmo banco de sempre, o qual, por ventura (boa ou ruim), ficava bem em frente ao navio de sua filha. Ele conseguiu avistá-la no barco. Viu também que, ao seu lado, estava um homem relativamente alto, de chapéu, que passava a mão por sobre os seus ombros. Viu também uma criança entre eles. Sua filha acenou, mas ele não respondeu. Apenas manteve o olhar fixo e atônito, como sempre o fez. Quando o navio mal saiu do porto, levantou e saiu.

Neste dia, fez café apenas para um. A campainha tocou.

 

 

Um grande abraço a todos.

 

 

Gnomo

 


Escrito por V & V às 14h52
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