Tecoterecoteco e outros Devaneios

10/06/2009

Do lado de lá...

Passei o dia com o coração apertado. O barulho dos helicopteros não me deixava esquecer que, não muito longe de mim, alguma coisa estava errada. A cada explosão de bomba de efeito moral, que podia ouvir nitidamente, uma angústia me tomava. Eram 6 da tarde e eu estava na Universidade de São Paulo. Tão logo pude, fui ao encontro dos estudantes em uma assembléia enorme que fechava uma das principais vias de acesso do campus, e tinha um quê de protesto francês dos anos 60. Definitivamente, alguma coisa estava errada. É a repressão, que acontece um pouco desfigurada, pela falta de referência dos tempos da ditadura militar. Desde 1979 a Polícia Militar e o Batalhão de Choque não entravam na Universidade. Hoje, aqueles homens jogaram bombas de gás lacrimogêneo contra pessoas que lutavam por algo melhor. E isto foi o suficiente para me deixar muito, mas muito decepcionado, e porque não dizer, triste.

Não com o governo, pois deste já não espero mais paternalismos e tampouco afagos. É uma criança mimada que só consegue vislumbrar o interesse que a máquina gire. Minha completa e absoluta decepção é com todos aqueles que calam, sorriem, xerocam, estudam, comem coxinha, avançam o sinal fechado, acendem um cigarro, urinam, exercitam-se, e tocam suas vidas como se nada estivesse acontecendo. Não podemos jamais reclamar da atual situação do país: Somos 190 milhões de coniventes, pela mais pura conveniência. Os maiores aborrecimentos que presenciei, eram relativos ao trânsito que se formava como consequência. O movimento estudantil também se perdia, apoiados em siglas que não tomam borrachadas. Minha vontade era conversar com cada policial que empunhava seu escudo, explicar o porquê de tudo aquilo estar acontecendo, e, quem sabe assim, convencê-los que o que estão fazendo é muito injusto. Mas eles só cumprem ordens. Me sinto tão impotente! Tenho uma consciência absurda do que acontece, mas não consigo fazer meu grito ecoar.

Com o movimento cada vez mais esvaziado e sem credibilidade - e não isento-os da culpa disto ter acontecido, por apegarem-se tão fortemente a teorias retrógradas - fica cada vez mais difícil argumentar com uma massa pensante, torná-la disposta a tomar atitudes em prol da mudança e expressar claramente o descontentamento. Não vejo mais solução. Tudo o que acontece, só acontece pela falta de princípios e caráter de alguns, e isto é incorrigível. Antes de ir embora passei ao lado do choque da polícia, que dava cobertura a um senhor que falava energicamente em frente à imprensa, afoita por informações que nunca chegarão completas aos ouvidos da população. Ouvi este senhor dizer que "a democracia estava sendo ferida em suas bases, e a falta de ordem não poderia continuar a acontecer na Universidade". Ele foi aplaudido por uma dúzia de estudantes que tomavam as dores da polícia. Não há mais nada a ser dito. Todos voltarão em breve a calar, sorrir, estudar, xerocar, comer coxinhas, avançar o sinal fechado, acender um cigarro, urinar, exercitarem-se e tocar a vida como se nada tivesse acontecido, porque infelizmente, mais uma vez, nada aconteceu.


Escrito por V & V às 00h30
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07/06/2009

A dança

 

Ela dançava. E tudo o que está por ser escrito abaixo se preocupa em resumir o ato tão sublime que era aquilo. Ela dançava. De certo tinha alguma prática profissional nisso, pois dançava muito bem. Girava e se movimentava como se o chão fosse de algodão. Como se o impacto de seus pés no cimento não surtisse efeito algum em suas articulações.

 

Teus cabelos eram claros, teu rosto simétrico, tua roupa exata. Sim, era bela. Mas não era esse o seu principal encanto. Sua dança falava por si. A alegria expressa em seu rosto a cada rodopio fazia claro o amor aos movimentos. Nos limites de seu giro, o cabelo se debatia com alguns dançantes próximos. Não se perturbavam, não a perturbavam. Quem seria capaz de arrancar os pincéis do artista em meio a sua obra? Que seria capaz de pedir por silencio em meio a um concerto? O mundo girava lento e devagar, e ela, sem pressa, se deleitava com isso.

 

Ao seu redor, divididos em pontos estrategicamente não-combinados, estavam alguns homens. Estes a veneravam como deusa. Não, não era sua dança que observavam. Era seu corpo, que, abençoado com as curvas da beleza, era alvo dos olhares mais instigantes que um homem pode dar. E ela não dava conta (ou fingia não dar), e continuava a flutuar ao som da banda que se apresentava ao fundo.

 

A distância era quase quilométrica, contudo não estavam entre nós mais de 4 metros. Quase me eram necessários binóculos para acompanhar o compasso de suas pernas, o giro de seus cabelos, os dentes de seu sorriso. Mas este hiato, apesar de grande, me permitia a observação (e porque não, a admiração).

 

A música acabou, ela foi embora e, a caminho da saída, esbarrou em meu ombro. Nesse momento pude sentir o perfume e o cheiro de seu corpo. Fotografei o sentido.

 

A distância novamente se apoderou de nós, surgiu-me este clichê.

Um grande abraços a todos

Callil


Escrito por V & V às 22h21
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