Morte à Brasileira 
Eu imaginava a platéia do lugar: - Que horas que ele vai entrar? - Não sei. Você conhece esses astros né?! Eles sempre atrasam para deixar o público na expectativa. - É verdade. Pô, mas essa é a última aparição dele, tinha que respeitar pelo menos hoje. - Bom, não podemos fazer nada, senão aguardar e se conformar. Não mais que de repente cantores, apresentadores e parentes começam a subir no palco para o show-funeral do homérico Michael Jackson. A morte do pop é celebrada (?) em grande estio, com músicos, lágrimas famosas, cobertura em rede MUNDIAL de televisão e internet e, até quem nada tinha a ver com o defunto, que não conhecia mais do que o seu poderoso Moonwalk, acabou se emocionando por osmose, tamanha foi a comoção mundial. Nunca fui fã de Michael e, sinceramente, não me diz muito a morte dele. Entendo a representatividade que isso tem para o “mundo da música pop” (essa expressão me faz sentir parte da edição da revista Capricho), entendo que milhões de pessoas eram apaixonadas por suas letras, sua dança, sua música e o conteúdo de suas atitudes. Acredito que isso tenha um valor (além do financeiro), e muito alto. Acredito também, que sua vontade de criar esteja sim, relacionada a um talento e capacidade de agir que o mercado fonográfico soube aproveitar muito bem, e, por que não, de certa forma, valorizá-lo (afinal, mesmo afogado em dívidas, nosso falecido possuía um patrimônio bastante invejável). Agora, o que chama a atenção é o funeral. É o show-funeral. É como se, quando o Ayrton Senna morresse, os brasileiros o tivessem colocado na reta final de um GP com a bandeira quadriculada anexada em seu caixão. Isso seria um absurdo, e, certamente, não daria para encarar como uma homenagem, ainda que fosse feito com a melhor das intenções. Mas, é claro, o mundo do esporte e o da música são completamente diferentes. O caixão ficava ali, cantores entravam e saíam, parentes choravam no microfone emocionados, a platéia não piscava. Parecia que, a qualquer momento o Michael se levantaria e começaria a acompanhar seus colegas de profissão. Mas isso não aconteceu. Esse show era irreversível. Alguns problemas com a reprodução dos alto-falantes, alguns momentos de silêncio por conta de falhas técnicas. Um momento inesperado de introspecção e respeito ao falecido tomou conta do ambiente, enquanto técnicos de som, trajando o uniforme da empresa contratada, se desdobravam em mil para poder dar continuidade ao espetáculo. Lágrimas e suor escorriam por todo lado. O show não pode parar (chavão). Paro, penso e desisto. Resolvo colocar os pés no chão. Sobre a morte? Não precisamos de exemplos estrangeiros para lidar com ela. Lembro-me de um poeta pernambucano brasileiro que escreveu sobre ela em sua obra Morte e Vida Severina. Depois, um compositor nascido no Rio (porém de infância paulista), musicou um trecho da obra. Me senti melhor, desliguei a TV. Mandei um egoísta “dane-se” ao Michael Jackson e fui retomar a leitura. O poeta: João Cabral de Melo Neto. O compositor: Chico Buarque. Abaixo, a morte à brasileira (e, porque não (?!), à realidade): Funeral de um Lavrador Esta cova em que estás com palmos medida É a conta menor que tiraste em vida É de bom tamanho nem largo nem fundo É a parte que te cabe deste latifúndio Não é cova grande, é cova medida
É a terra que querias ver dividida É uma cova grande pra teu pouco defunto Mas estás mais ancho que estavas no mundo É uma cova grande pra teu defunto parco Porém mais que no mundo te sentirás largo É uma cova grande pra tua carne pouca Mas a terra dada, não se abre a boca É a conta menor que tiraste em vida É a parte que te cabe deste latifúndio É a terra que querias ver dividida Estarás mais ancho que estavas no mundo Mas a terra dada, não se abre a boca. Um grande abraço a todos!! Callil
Escrito por V & V às 13h07
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