Tecoterecoteco e outros Devaneios

10/07/2009

 

Morte à Brasileira

 



Eu imaginava a platéia do lugar:

- Que horas que ele vai entrar?

- Não sei. Você conhece esses astros né?! Eles sempre atrasam para deixar o público na expectativa.

- É verdade. Pô, mas essa é a última aparição dele, tinha que respeitar pelo menos hoje.

- Bom, não podemos fazer nada, senão aguardar e se conformar.

Não mais que de repente cantores, apresentadores e parentes começam a subir no palco para o show-funeral do homérico Michael Jackson. A morte do pop é celebrada (?) em grande estio, com músicos, lágrimas famosas, cobertura em rede MUNDIAL de televisão e internet e, até quem nada tinha a ver com o defunto, que não conhecia mais do que o seu poderoso Moonwalk, acabou se emocionando por osmose, tamanha foi a comoção mundial.

Nunca fui fã de Michael e, sinceramente, não me diz muito a morte dele. Entendo a representatividade que isso tem para o “mundo da música pop” (essa expressão me faz sentir parte da edição da revista Capricho), entendo que milhões de pessoas eram apaixonadas por suas letras, sua dança, sua música e o conteúdo de suas atitudes. Acredito que isso tenha um valor (além do financeiro), e muito alto. Acredito também, que sua vontade de criar esteja sim, relacionada a um talento e capacidade de agir que o mercado fonográfico soube aproveitar muito bem, e, por que não, de certa forma, valorizá-lo (afinal, mesmo afogado em dívidas, nosso falecido possuía um patrimônio bastante invejável).

Agora, o que chama a atenção é o funeral. É o show-funeral. É como se, quando o Ayrton Senna morresse, os brasileiros o tivessem colocado na reta final de um GP com a bandeira quadriculada anexada em seu caixão. Isso seria um absurdo, e, certamente, não daria para encarar como uma homenagem, ainda que fosse feito com a melhor das intenções. Mas, é claro, o mundo do esporte e o da música são completamente diferentes.

O caixão ficava ali, cantores entravam e saíam, parentes choravam no microfone emocionados, a platéia não piscava. Parecia que, a qualquer momento o Michael se levantaria e começaria a acompanhar seus colegas de profissão. Mas isso não aconteceu. Esse show era irreversível. Alguns problemas com a reprodução dos alto-falantes, alguns momentos de silêncio por conta de falhas técnicas. Um momento inesperado de introspecção e respeito ao falecido tomou conta do ambiente, enquanto técnicos de som, trajando o uniforme da empresa contratada, se desdobravam em mil para poder dar continuidade ao espetáculo. Lágrimas e suor escorriam por todo lado. O show não pode parar (chavão).

Paro, penso e desisto. Resolvo colocar os pés no chão. Sobre a morte? Não precisamos de exemplos estrangeiros para lidar com ela. Lembro-me de um poeta pernambucano brasileiro que escreveu sobre ela em sua obra Morte e Vida Severina. Depois, um compositor nascido no Rio (porém de infância paulista), musicou um trecho da obra. Me senti melhor, desliguei a TV. Mandei um egoísta “dane-se” ao Michael Jackson e fui retomar a leitura. O poeta: João Cabral de Melo Neto. O compositor: Chico Buarque. Abaixo, a morte à brasileira (e, porque não (?!), à realidade):

 

Funeral de um Lavrador

Esta cova em que estás com palmos medida
É a conta menor que tiraste em vida
É de bom tamanho nem largo nem fundo
É a parte que te cabe deste latifúndio
Não é cova grande, é cova medida

É a terra que querias ver dividida
É uma cova grande pra teu pouco defunto
Mas estás mais ancho que estavas no mundo
É uma cova grande pra teu defunto parco
Porém mais que no mundo te sentirás largo
É uma cova grande pra tua carne pouca
Mas a terra dada, não se abre a boca
É a conta menor que tiraste em vida
É a parte que te cabe deste latifúndio
É a terra que querias ver dividida
Estarás mais ancho que estavas no mundo
Mas a terra dada, não se abre a boca.

 

 

 

Um grande abraço a todos!!

Callil


Escrito por V & V às 13h07
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