Crônica do Sepulcro Passional Ela não sentia nenhuma dor pelo ocorrido. E o pior: tampouco sentia remorso por não encontrar-se absorta em sentimentos negativos. O marido ali, naquela situação, estendido sobre a caixa de madeira. Todos fitavam seus olhos, escondidos atrás de um Ray-Ban que ganhara do pai na viagem à Nova Iorque, à procura de lágrimas que nunca rolaram. Bem que forçou um pouco para tentar atender ao anseio do público à espera do líquido que verte dos olhos dos aflitos, mas não conseguiu. Para aqueles que vieram prestar suas condolências, comentava-se à boca pequena que ela estava apática, como ficam os que perdem seus entes queridos de forma tão abrupta. Mas não. Ela própria considerou a possibilidade, mas logo entendeu que o que sentia naquela sala com luzes intermediárias e um forte odor – das muitas coroas de flores que recebera – era equivalente a um simples lamento. Lamentava por não ter mais o café preparado por aquelas mãos, que o faziam como ninguém. Sentia pela falta que lhe faria ser hipnotizada por aquele riso único, mas que há tempos já não ouvia mais. Sentia mais por si mesma do que pelo defunto. E por si própria não poderia chorar, há que se acostumar, apenas. Olhou por algumas vezes aquele corpo frio e lembrou-se dele outrora quente sobre o seu. Lembrou-se de quantos momentos de intimidades foram compartilhados. Não sentiu saudades. Apenas suspirou e pensou consigo: “É, foi bom”. A esta altura, pode parecer a todos os presentes na cerimônia derradeira que esta é uma viúva sem coração. Com razão. Estamos acostumados às pirotecnias fúnebres, como a que fizeram a mãe e a sogra – do defunto, sua própria mãe. Não se sabe quem estava mais inconformada, pois o genro sempre disse que a sogra era sua segunda mãe. Se a situação fosse contrária seria digna de pena por ele. Sempre foi sentimentalista, melodramático, poeta, teatrólogo, Shakespeariano, notívago e artístico. Admirava-a como quem vê um Van Gogh pela vez primeira, justamente pela sua forma de encarar situações da vida de um jeito prático e insolúvel: o oposto de si. Certa vez conversavam na cozinha sobre temas Universais como a vida e a morte. Ele buscava a inspiração Aristotélica para fundamentar sua divagação, e ela lia os valores nutricionais do biscoito. Assim se complementavam e puderam viver tantos anos juntos. Mas ele sempre cultivou uma inexplicável loucura por ela maior do que o contrário. E pela Lei Geral dos Relacionamentos Amorosos, qualquer amante deve estar em sintonia quantitativa com o amado, para que não haja cobranças e desavenças posteriores em relação a isto. Quando baixou o caixão na terra, a viúva soltou um soluço, deixando todos com a impressão de que, naquele último momento, dera-se conta do que se passava e principiava um tímido lacrimejar. Engano. Soluçara por conta da gordurosa coxinha que comeu às pressas como almoço. Tinha para si que o amor havia acabado há muitas décadas, a admiração há muitos anos, a consideração há poucos meses e o resto de um sentimento há algumas horas. Porquanto, só lhe restava lamentar. Quando a última pá de terra foi despejada, agradeceu a presença de todos - como fazem os artistas no fechar das cortinas - virou-se nos calcanhares, e andou num passo apressado para pagar a conta antes que o banco fechasse e acarretasse em uma multa no dia seguinte. Para ela a vida continua. Victor G.
Escrito por V & V às 04h56
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