Ele, ela e a cadeira Na sala de jantar tinham três cadeiras. Uma para ele, outra (obviamente) para ela, a terceira era para uma possível visita. É certo que nunca haviam recebido visitas desde que se mudaram para aquele apartamento, e isso havia acontecido há dois anos, mas, de qualquer forma, a cadeira estava ali. Ainda que fosse só para completar a composição decorativa da sala, ainda que fosse para suprir o vazio que ficaria caso ela (a cadeira) não estivesse ali, ainda que estivesse pelo fato de ter vindo junto, no conjunto. É certo porém, que aquele espaço vazio, aquele móvel silencioso, despertava no casal diferentes esperanças. Ele dizia que ali, um dia, sentaria seu atual chefe e dono da empresa, numa futura ocasião, sócio. Ela sorria gostoso, um sorriso desses que a gente dificilmente esquece, e abençoava o que ele dizia. Apesar de seu sorriso, ela sonhava outras ocupações para aquela cadeira. Pensava que quando seu irmão voltasse da clínica de reabilitação, ele poderia morar ali, assim não precisaria voltar para a casa dos pais e ficar ouvindo as antigas conversas. Às vezes ia mais longe. Sonhava que um dia ali, sentaria uma criança, fruto da união dos dois (ele e ela). O fato é que o tempo passou. Os três ficaram velhos. Ele, ela e a cadeira. E no clichê do sonho não realizado, a cadeira foi praticamente esquecida. Com a troca dos móveis da casa no decorrer dos anos, a cadeira foi posta no quartinho do fundo - em frente a máquina de costura que era da vó dela - onde eles poucas vezes entravam durante o mês. É verdade que toda vez que eles entravam ali, fosse ele, fosse ela, olhavam com certa tristeza para a cadeira. Não pelo móvel estar ali, inutilizado. Não pelo móvel estar velho. Não por ele ter perdido a função que antes possuía. A tristeza que lhes batia (eles se igualavam nesse sentimento), era um tanto inexplicável. Vinha-lhes um sentimento de nostalgia, saudade, e, ao mesmo tempo, decepção. A cadeira era o símbolo do sonho que eles não realizaram. A cadeira é o símbolo de sonhos que, um dia, ao menos eles tiveram. Um grande abraço a todos Callil
Escrito por V & V às 11h50
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