Egolópole Voltava eu, após um dia de chuva, cinza e frio, para casa. Não digo aqui que era um dia feio pois não acredito ser esse um adjetivo justo para os dias de chuva. Talvez esses sejam assim chamados por serem, eventualmente, frios, até solitários, mas feios, ah, isso nunca. O fato é que eu voltava da cidade universitária da metrópole paulistana para minha casa. Esse caminho exige um certo deslocamento burro, visto que é necessário ir até um ponto para fazer o mesmo caminho inverso depois. Não existe um transporte rápido da cidade universitária para alguns pontos da região sul/oeste da capital, como, por exemplo o sentido Campo Limpo, ou, até mesmo, para ser mais exato, as proximidades do shopping Butantã. No entanto, o que venho aqui salientar não é caminho a ser feito, tampouco a necessidade das conduções a se tomar para efetuá-lo. Enquanto sobrevivia a epopéia do primeiro ônibus, resolvi espiar a janela de trás. Estava sentado na última cadeira, e a maior (e melhor) janela do ônibus estava logo atrás de mim. Qual não foi meu regalo ao ver o crepúsculo que se compunha. A imagem projetada no céu oriunda das cores emanadas pelos últimos raios solares do dia eram dignas de uma pintura em tamanho real. Por um bom período de tempo, o barulho da entrada do Largo de Pinheiros não atingiu meus ouvidos, a beleza da menina sentada ao meu lado nada me dizia, o funk que tocava no alto-falante de um celular perdido pelo coletivo não alcançava a atenção de eu desprenderia outrora. Aquele por do sol, aquele resquício de vida inteligente na metrópole era ignorado pela maioria. Inicialmente, me senti um privilegiado. Entre tantos, nenhum se deparava com o espetáculo às suas costas, além de mim. Me senti diferente, de alguma forma, até melhor que os outros. Chegando em casa, perguntei à minha mãe “você viu o por do sol que teve hoje?” e ela me disse “Se vi! Deu um fim de tarde maravilhoso, o céu estava espetacular.”. Me senti sacaneado. Aquela era para ser uma percepção somente minha. Concordei com ela. No final da noite, antes de dormir, pensando nos acontecimentos do dia, lembrei do pôr do sol. Lembrei do que senti quando o vi. Lembrei do que senti quando minha mãe o viu. E percebi que tenho uma capacidade enorme de ser uma pessoa mesquinha, mas algo me conforta – tenho certeza que não sou só eu. Um grande abraço a todos!!! Callil
Escrito por V & V às 11h47
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